JOÃO E JEREMIAS (A PORRA DA HISTÓRIA)

junho 24, 2009

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João e Jeremias
(a porra da história)

JR Fidalgo

Para João, Jeremias e todos os outros.


“Nós só queremos que Deus nos mostre a sua face”.
Foi o que ele disse, lá sentado naquele sofá
Em frente às câmeras de TV
Ele não teria dito nada
Mas então o sujeito lhe perguntou:
“O que vocês pretendem?”
Então ele disse:
“Nós só queremos que Deus nos mostre a sua face”.
E o apresentador ficou calado
E os homens atrás das câmeras ficaram calados
E todas aquelas pessoas sentadas na platéia também ficaram caladas
Então ele se levantou, disse boa noite e foi embora
(De “A Porta dos Fundos do Paraíso”)


_____________________INTRODUÇÃO

Nos últimos tempos, era difícil ficar sozinho e isso acabava sendo uma contradição, pois sabia que a solidão era essencial para algumas coisas básicas, como, por exemplo, tentar escrever um novo livro. Havia descoberto, no entanto, que não era boa companhia para si mesmo. Aliás, desconfiava que era a pior delas.

Outra contradição, ou ironia, era o fato de ele ter se demitido do seu último emprego justamente para ter tempo livre para se dedicar a escrever. Bem, o motivo não havia sido apenas esse. Na verdade, foram vários motivos que o levaram a tomar a decisão de deixar a até certo ponto confortável situação em que se encontrava alguns meses atrás para tentar viver com o pouco dinheiro que havia juntado e com o trabalho avulso que pintasse, pelo maior período possível.

De qualquer forma, mais tempo para escrever as “suas coisas” foi um dos motivos. E, agora, a última coisa que fazia com seu tempo livre era usá-lo para escrever. Havia sempre algo que ele achava mais importante ou divertido para fazer. E, quando nada do tipo surgia, ele ficava como estava agora, andando pela casa de um lado para o outro, abrindo a geladeira, indo até o computador verificar pela enésima vez seus e-mails, ligando a TV e zapeando os canais sem conseguir se interessar por nada do que aparecia na tela. selo a

Não havia nenhuma novidade nisso. Qualquer idiota que fosse idiota o suficiente para achar que podia escrever alguma coisa que valesse a pena enfrentava situações como essa, mais cedo ou mais tarde. A duração da tortura dependia do nível de idiotice de cada um, isto é, quanto mais idiota a pessoa fosse, mais longo seria esse período, já que o idiota em questão continuaria persistindo por mais tempo na sua tentativa idiota de escrever. Alguns idiotas, inclusive, tentavam transformar essa tortura auto-imposta no tema de seus pretensos livros, sem atentar para o fato de que inúmeros idiotas antes deles haviam feito o mesmo.

Não era, portanto, essa a questão. O problema era que, ultimamente, quando ficava sozinho, em casa, todas as coisas que fazia para “não escrever” eram também e, principalmente, uma tentativa de evitar entrar naquele estado de desespero gratuito que tão bem conhecia e sabia para onde sempre o levava quando ficava muito tempo mergulhado naquelas águas sombrias e profundas. E o idiota dentro dele já estava quase o convencendo de que isso seria um ótimo tema para o livro que não estava escrevendo. No entanto, o seu medo de afundar no pântano escuro que o ameaçava nessas ocasiões era grande demais para que ele se atrevesse a brincar com isso.

Quando ela estava por perto, isso, é lógico, não acontecia. Aliás, quando ela estava por perto, sua insanidade parecia, milagrosamente, reduzir-se a níveis mínimos, na maioria das vezes bem suportáveis. A vida ia simplesmente fluindo e, na maior parte do tempo, aquele antigo provérbio zen “não apresse o rio, ele corre sozinho” parecia fazer todo o sentido. De qualquer forma, isso só acontecia quando ela estava por perto, e ela não estava por perto sempre e não estava por perto agora…

De vez em quando, tinha a impressão de que havia caído numa armadilha, uma armadilha que ele próprio tinha armado. Não no que se referia ao seu estado de desespero crônico e recorrente. Este era definitivamente patológico e incurável, vinha até se acostumando melhor com idéia de conviver eternamente com ele nos últimos tempos. A armadilha, no caso, tinha a ver com o segundo livro. Sim, porque ele já tinha escrito e lançado um primeiro, A Porta dos Fundos do Paraíso, numa edição reduzidíssima financiada do próprio bolso. E esse foi o primeiro passo para construir a armadilha na qual se sentia agora aprisionado.selo 3

Nada errado em ter lançado esse primeiro livro. Sentia-se até gratificado pelo fato de ter conseguido levar um projeto até o fim, coisa rara na sua história de vida cheia de inúmeros projetos inacabados abandonados pelo caminho. É claro que o incentivo persistente dela para que seguisse em frente foi fundamental para que isso acontecesse. Mas essa era outra história.

Outra coisa positiva é que, embora o livro ficasse conhecido apenas entre um grupo restrito de pessoas, mereceu até alguns elogios. Isso e também o fato da pequena tiragem impressa ter sido praticamente toda vendida, o que o livrou da previsível depressão de ter uma pilha de livros encalhados olhando para ele em casa.

Então, o problema não foi ter escrito e lançado A Porta dos Fundos do Paraíso. Afinal, nunca foi idiota o suficiente para alimentar sonhos delirantes sobre o futuro do livro e estava satisfeito com o retorno obtido até ali. O problema, na verdade, foi não ter se levado suficientemente a sério quando, nas entrevistas que deu a alguns jornais e TVs locais, por ocasião do lançamento de A Porta dos Fundos do Paraíso, afirmava que qualquer idiota podia escrever um livro e que, com as facilidades tecnológicas atuais e o barateamento da produção, qualquer um podia também, por conta própria, imprimi-lo, lançá-lo e colocar alguns exemplares à venda em livrarias da cidade onde vivia.

Como se fez de surdo às suas próprias palavras, o idiota dentro dele percebeu a brecha e começou a convencê-lo de que ele não só devia continuar escrevendo, mas tinha “obrigação” de fazê-lo. Tinha que provar a si mesmo e ao MUNDO que A Porta dos Fundos do Paraíso não era resultado de sorte de principiante e nem seu primeiro e último suspiro antes da morte. A partir desse ponto, o idiota assumiu totalmente o comando e agora ali estava ele, olhando para os últimos quatro exemplares de A Porta dos Fundos do Paraíso que restaram na sua estante.

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PARTE II

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_________________________________Capítulo I

Conhecia bem aquela sensação e, como acontecia com outras  tantas  sensações incômodas, sabia onde aquela sensação estava  tentando levá-lo. O  interessante é que, apesar dessa percepção,  isto é, de perceber as sensações e  de prever onde elas o acabariam  conduzido, havia aprendido também que era  inevitável resistir. As  sensações eram incontroláveis, como incontrolável era o  fluxo que  elas produziam e que o arrastavam como um tronco na enxurrada.

Não muito tempo atrás, havia se preparado para ser um    nômade. Embora  nunca tenha na realidade se tornado um    nômade, aquela sensação de achar  que estava preparado para sê-  lo dava-lhe certa segurança. Afinal, estava por  ali só de passagem.  A qualquer momento, se as águas começassem a subir, ele  podia  pular fora e voltar a nadar.

Com a prática, acabou se acostumando com essa constante perspectiva provisória de vida, a ponto de concluir que havia finalmente encontrado a sua postura ideal diante do mundo. Logicamente, manter essa postura exigia algum tipo de vigilância. Por exemplo, volta e meia a idéia de ter um lugar para repousar a cabeça surgia do nada e precisava ser ferozmente combatida com uma série de contra-argumentos, o principal deles o de que sua própria experiência demonstrava que, sempre que se deixou levar por essa “ilusão”, as conseqüências tinham sido as piores possíveis. Se havia pessoas que tinham consegselo 2uido encontrar esse lugar que costumavam chamar de lar, ele definitivamente não fazia parte desse círculo.

De sua parte, fingiria que estava totalmente presente nos lugares onde eventualmente se encontrava, mas sempre preparado para ejetar seu assento e sumir no espaço, caso as coisas se complicassem a níveis de alto risco. Depois do grande caos em que sua vida havia se transformado num passado não muito distante, viver de “prontidão” não era assim tão ruim. E, como já foi dito, ele já tinha se acostumado com a situação e, às vezes, até chegava a gostar dela, quando relembrava os riscos que estava evitando.

Os anos logo após o dilúvio foram vividos assim. Até que ela apareceu. Ele resistiu o quanto pôde, mas não pôde muito.

Merda, não queria escrever sobre nada daquilo. Queria cair fora. Ele era um nômade, nômades não olham para trás, porque, “quando você não tem nada, você não tem nada para perder”.

__________________________________Capítulo II

Não, não iria mexer naquilo outra vez. Sabia até onde estavam os originais de Sobre Aquilo Tudo. Estavam salvos num CD guardado em alguma gaveta ou prateleira do velho guarda roupa no quarto adaptado como escritório. E havia até mesmo alguma coisa esparsa publicada no blog, cerca de ano e meio atrás. Mas não queria mais mexer naquilo. Era assunto encerrado e devia permanecer assim.

No entanto, sabia que ali havia muitas das coisas que gostaria de repetir para ela. Às vezes, ele achava que ela havia se esquecido daquele tempo e de tudo o que tinham passado durante aquele período. Mas talvez fosse tudo bobagem. De qualquer forma, não mexeria mais naquilo.

Contudo, a lembrança daquele material, escrito há cerca de oito anos e organizado na forma do que poderia ter sido um livro – caso fosse editado e impresso -, era sintomática. Sentia que estava andando para trás e isso lhe dava medo, medo de onde isso poderia levá-lo, nos próximos dias, nas próximas semanas.
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A cada dia que passava, a sensação de que estava em perigo tornava-se mais forte. E sabia que a origem  desse sentimento  vinha de dentro dele, da sua familiar incapacidade de lidar com situações que, para a maioria  das pessoas, eram normais, mas que,  para ele, se transformavam em verdadeiras batalhas entre a vida e a  morte.

Na verdade, não queria passar por tudo aquilo de novo. Primeiro, o medo da perda; depois, a perda; depois, o desespero do  vazio, e depois….sabe-se lá mais o quê. Já havia acontecido várias vezes e não existia antídoto para aquilo. A não ser…

A não ser…se transformar num nômade.

Sabia, porém, que isso não ia ser nada fácil. Às vezes se sentia um gato velho e gordo. Estava destreinado, desatento, descuidado. É o que invariavelmente acontece quando as pessoas abaixam a guarda e acham que já está tudo resolvido. É sempre um erro, sob qualquer aspecto. Então, num dia qualquer, o céu, de repente, começa a ficar escuro, cada vez mais escuro. A chuva cai pesada e quase nos afoga. Só então percebemos que havíamos esquecido como nadar. Pior ainda, descobrimos que nunca aprendemos a nadar, estávamos apenas nos agarrando a um pedaço de madeira que passou boiando ao nosso lado, quando da última tempestade.

Mas, definitivamente, não iria mais mexer naquilo.

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PARTE III

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_______________________________Capítulo III

Defeito de fabricação. Cristalino como a água pura que desce da nascente na montanha. Andava para lá, andava para cá e acabava sempre no mesmo ponto. Não havia outra explicação possível. O mais engraçado – ou trágico, dependendo do ponto de vista – é que já sabia disso faz tempo. Fez, inclusive, várias tentativas, tanto para reparar os danos quanto para reduzi-los. E, àquela altura da vida, era obrigado a admitir que os resultados haviam sido ridículos. Seus pinos continuavam batendo como um carro a ponto de explodir na pista.

Só que, ao contrário das máquinas, creditava seus defeitos de fabricação não a peças mal moldadas ou erros de projeto. Suas disfunções eram resultado de um acúmulo de acidentes de percurso, caminhos equivocados e mal entendidos. E, quando se chegava àquele ponto da estrada, era difícil fazer qualquer coisa significativa a respeito. Até mesmo conformar-se com a situação parecia uma atitude estúpida.

Gostaria que, como no filme que vira com ela há alguns dias, existissem realmente anjos observando os humanos do alto dos edifícios das cidades. Não tanto pelo fato de que talvez eles pudessem ajudar ou proteger, mas sim porque a sua existência abriria novas perspectivas a respeito da vidinha que a imensa maioria dos humanos vivia aqui embaixo, no nível do chão, mesmo quando estão empoleirados nas janelas dos grandes edifícios que parecem chegar até as nuvens. A existência de anjos, porém, era improvável. Assim, ele teria que procurar qualquer outro atalho, se quisesse continuar trafegando naquela estrada que, a cada curva, ficava mais estranha e sem sentido.

Estava delirando sobre todas essas coisas, deitado no sofá, com os olhos fixos no vaso de flores em cima da mesa, quando foi tomado por uma daquelas incontroláveis e inexplicáveis sensações de pânico. Quando isso acontecia, só havia uma saída, deslizar rapidamente para a rua.selo 1

Estava lá, pichado na parede do velho armazém de café abandonado: “Eu te amo, Ana Marlow”.

Quem seria Ana Marlow, e quem estaria apaixonado por ela?

Será que Ana Marlow ainda estava viva? E quem pichou aquela frase na parede do armazém abandonado, ainda estaria vivo? Ou será que Ana Marlow era apenas uma musa imaginária de algum vagabundo louco que vivia por aquelas ruas?
Impossível saber quem era Ana Marlow ou mesmo se ela existia.

No entanto, era um nome bonito. “Ana Marlow, a rainha do gueto!”

Ele pensava essas bobagens quando resolveu fazer uma coisa que não fazia há muitos anos: sentar numa praça. E aquela era a principal praça da área central da cidade. Como era hora do almoço, havia bastante gente circulando pela praça, a maioria, com certeza, pessoas que trabalhavam por ali. Então ele começou a refletir sobre a função das praças nas cidades.

Concluiu que as praças eram lugares onde a gente sentava para não fazer absolutamente nada, ou apenas para ver as pessoas passarem, ou somente para pensar, como ele estava fazendo naquele momento. Mas as praças também eram locais onde a gente ia para encontrar outras pessoas.

E em outros tempos, ele lembrou, as praças também serviam para as pessoas realizarem manifestações, a favor ou contra determinadas coisas.

Percebeu, então, que as praças, principalmente nas cidades maiores, estavam perdendo sua função, já que poucas pessoas as utilizavam para sentar e não fazer absolutamente nada, nem para ver as pessoas passarem, nem para pensar, nem para encontrar as outras pessoas, nem para se manifestarem a favor ou contra seja lá do que for.selo 2

As praças estavam se transformando em simples locais de passagem ou em lugares onde se dava um tempo até a hora de voltar para o emprego, como acontecia naquela praça, onde ele agora estava sentado.

Mas que diabo queria dizer aquilo?

“Compreenda a influência do humano em tudo”.

A frase estava estampada na camiseta de um rapaz que passava pela praça acompanhado de uma garota. Nunca tinha visto nenhuma camiseta com aquilo escrito. Aliás, nunca tinha visto aquilo escrito em nenhum lugar.

“Compreenda a influência do humano em tudo”.

Se fosse a influência do divino, seria fácil de entender. A camiseta estaria. quem sabe, divulgando algum movimento religioso ou coisa parecida. Mas a influência do humano?

Quem estaria exaltando – ou criticando, o que também era possível – a influência do humano em tudo?

Saber essa resposta não era, com certeza, a preocupação do funkeiro que passava logo a seguir por ali, ouvindo um “proibidão” no seu celular. Então, o cara deu uma sentada num dos bancos, esperou o “proibidão” terminar, fechou o celular e saiu andando.

Doido por doido, ele se identificava mais com o sujeito que arrastava um saco de lixo de plástico preto de um lado pra outro da praça, reclamando em voz alta não se sabia do que nem pra quem.

Reparou, então, que apenas os doidos – e sempre havia vários deles nesses locais – ainda davam a devida importância às     praças das cidades, já que, em geral, faziam delas seus territórios de resistência e sobrevivência.

Se continuasse a elaborar teorias como aquela – e principalmente se começasse a acreditar nelas -, em breve acabaria transformando uma das praças da cidade no seu território de resistência e sobrevivência. Afinal, virar mais um vagabundo doido de rua era algo que sempre freqüentara seus delírios, quando pensava em opções para o futuro. Sendo assim, achou que era melhor levantar-se e continuar caminhando.

Já tinha refletido bastante sobre praças, vagabundos e loucos.

Era hora de cuidar da vida e isso significava ir a uma farmácia comprar os medicamentos que nos últimos tempos era obrigado a ingerir diariamente. Estava fazendo seu pedido ao balconista da farmácia quando percebeu um vulto se aproximando à direita.selo 1

O homem insistia em que ele lhe desse um trocado. Ele disse que não tinha.

O homem continuou insistindo.

Ele, irritado com o assédio, repetiu em voz alta que não tinha trocado, “porra!”.

O homem finalmente se afastou.

Ele continuou pedindo os remédios, depois foi até o caixa e pagou.

Diabos, por que não dera um trocado ao sujeito?

Ele não tinha trocado mesmo, justificou-se. Mas ele sabia que não era isso.

Ele sabia que não dera um trocado ao homem porque sempre se sentia acuado com aquele tipo de situação e sempre reagia de forma agressiva.

Saiu da farmácia e foi até a padaria da esquina tomar um café, ainda ruminando a sua atitude diante do pedinte. Enquanto tomava o café, percebeu o mendigo que o abordara na farmácia se aproximando do caixa e depois do balcão da padaria.

“Uma pinga, já está paga”, disse ele ao copa, que rapidamente o serviu.

O homem entornou rapidamente o álcool na garganta, virou as costas e saiu da padaria. O homem finalmente havia arrumado um trocado.

Ele acabou seu café e foi embora.

Em geral, pensou ele, as pessoas ficariam satisfeitas de terem negado uma esmola que se transformaria em cachaça no balcão mais próximo. Ele, porém, continuava se culpando por não ter dado o trocado ao homem que o abordara na farmácia.

Ele sabia que aquele homem precisava desesperadamente matar a sua sede.selo 2

Contudo – e apesar de tudo -, ele tinha de continuar caminhando.

Então, quando se dirigia a uma livraria, cruzou com um colega dos tempos de faculdade, que fingiu não conhecê-lo.

Normalmente, ele agradeceria por aquilo, já que ele próprio vivia evitando cumprimentar pessoas nas ruas com as quais não ia muito com a cara. No entanto, sem saber bem por que, naquele momento a atitude do ex-colega de faculdade o irritou, fazendo-o murmurar baixinho entre os dentes para o sujeito que passava: “Babaca de merda!”

Depois, lembrando dos ensinamentos da sua mãe e das reflexões do seu terapeuta, questionou-se se, por acaso, sua hostilidade contra o ex-colega de faculdade não era motivada pelo fato do sujeito ter, aparentemente, se dado bem melhor na vida do que ele, pelo menos no quesito dinheiro. Mas logo chegou à conclusão de que não gostava de playboys, fossem eles ricos, pobres ou marcianos.

Aí perguntou a si mesmo: “E o que diabo vem a ser um playboy?”.

“Ora, você sabe muito bem do que estou falando”, respondeu, dando-se por satisfeito com a própria resposta.

Entrou na livraria e se tocou de que não fazia a mínima idéia do motivo que o levara até ali. Ficou por um tempo observando os livros nas prateleiras e, de repente, chegou à conclusão de que definitivamente não gostava de livrarias.

Então se perguntou por que diabos vivia entrando em livrarias e por que insistia em escrever livros. Afinal, onde ele imaginava que os livros que talvez um dia escrevesse pudessem ser vistos e comprados a não ser em livrarias?

Dessa vez não tinha nenhuma resposta satisfatória para as perguntas que vivia fazendo a si mesmo enquanto caminhava.

Por isso continuou andando, agora em direção à praia.

Sentou-se num dos bancos próximos à areia, ajustou os fones do mp3 e ficou olhando o mar no meio da tarde de sol.

Sentiu-se um idiota ali, sentado naquela praia, naquele meio de tarde, com uma seqüência de músicas antigas dos Rolling Stones entrando, uma após outra, pelos buracos dos seus ouvidos.

Aos poucos, porém, começou a se sentir bem, muito bem mesmo.

Estava no local certo, na hora certa, fazendo a coisa certa.

Então, se perguntou: “Onde andará Ana Marlow?”

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PARTE IV

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______________________________________Capítulo IV

A questão era que tudo ficava cada vez mais sem sentido. A cidade não fazia mais sentido, as coisas em que acreditava não muito tempo atrás não faziam mais sentido e, principalmente, ele próprio não fazia mais sentido nenhum. Não que, em algum momento até ali, as coisas chegassem a fazer totalmente sentido. Isso jamais havia acontecido. Houve, no entanto, algumas ocasiões em que sua vida parecia encaminhar-se para algum ponto de convergência, se não plenamente percebido na época, pelo menos pressentido um pouco mais à frente, perspectiva que bastava para continuar adiante. Mas agora, lá na frente, só havia uma névoa densa, muito densa e até certo ponto assustadora.

Caminhar por horas pelas ruas da cidade para chegar a essa conclusão não era propriamente um resultado animador. Podia ter continuado em casa, deitado no sofá, com os olhos fixos no vaso de flores em cima da mesa. Teria concluído a mesma coisa – e se cansado bem menos. Sabia, no entanto, que o cansaço que seu corpo sentia, resultado dos quilômetros percorridos nas ruas, tinha também uma função importante: reduzia sua pressão sanguínea, os batimentos cardíacos e, principalmente, aquele ruído na sua cabeça e a sensação de que o ar estava rarefeito ao seu redor.

O interessante é que, às vezes, do nada, surgia uma espécie de premonição de que realmente havia algum sentido. Ele só precisava se colocar no lugar certo, fazendo a coisa certa e tudo se encaixaria. Como naquele momento, lá sentado na praia, ouvindo velhas músicas dos Stones. O problema é que esses momentos eram muito breves. Logo as peças novamente se mexiam e a unidade se perdia mais uma vez. Então o “deserto” e a busca pela terra prometida voltavam à ordem do dia.
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Tentou explicar isso a ela, dias atrás, sem muito sucesso. Ela insistia em achar que ele era um cara     “bem mais resolvido” do que ela. Não sabia exatamente o que ela queria dizer com “bem mais resolvido”, mas tinha certeza de que a definição não se aplicava a ele. Além dele próprio, talvez só o seu terapeuta tivesse uma idéia mais aproximada da quantidade de ratos que circulavam pelo sótão do seu cérebro cansado.

Ainda há pouco, sentado na privada, dando uma cagada, lia uma entrevista antiga de Bono Vox, onde o cantor afirmava que precisava ter uma casa construída em cima de uma rocha firme – no seu caso, ao que parece, a crença no Deus lá dele -, porque, embora as águas no momento estivessem baixas, ele, mais cedo ou mais tarde, sempre trazia a tempestade pra dentro de casa.

De vez em quando alguém dizia alguma coisa que ele certamente diria sobre si mesmo. Aquela era uma delas.

Mais cedo ou mais tarde, ele sempre trazia a tempestade, pra dentro de casa, pra dentro dele. Por isso, precisava da tal rocha para construir sua casa. O problema é que ele percebia as águas ao seu redor cada vez mais agitadas, subindo e subindo, sem que ele avistasse nenhuma rocha nas proximidades.

“A escrita é cheia de influência de mestres norte-americanos, como John Fante e Charles Bukowski, caras que são citados ao longo do livro. Bukowski aparece no lado mais imaginário, como nas conversas que o autor tem com o pequeno vertebrado. Já Fante está presente na parte marginal, do homem que quer ser escritor famoso e vive num quarto de hotel ao lado de prostitutas, vizinho do porto.”

O garoto havia lido A Porta dos Fundos do Paraíso e escrito uma espécie de resenha no blog dele. Cada vez que sabia que alguém, com a idade daquele garoto, havia tido saco de ler A Porta dos Fundos do Paraíso e, ainda por cima, escrever algo a respeito, ele ficava de certa forma surpreso e, de certa forma, feliz. Surpreso porque jamais imaginou que garotos daquela idade se interessassem pelo tipo de coisa que ele escrevera no livro; feliz porque aquilo era uma espécie de prova de que, apesar de tudo, a garrafa com a sua mensagem continuava navegando e chegando a mãos que ele considerava improváveis, quando a lançou no mar.selo 2

Contudo, o que mais chamou a sua atenção ao ler a resenha do garoto não foi nada disso, mas sim a menção a Bukowski. Naquele dia, pouco antes, enquanto caminhava como um coiote perdido, tinha se lembrado de uma frase de Bukowski: “Eu tenho um caso de amor com as ruas dessa cidade.” A frase, escrita em um de seus livros ou incluída em alguma das raras entrevistas que deu durante toda a sua vida, referia-se às ruas de Los Angeles, por onde Bukowiski circulou a maior parte da sua vida e que serviram de inspiração para grande parte de sua obra.

Ele, porém, não tinha uma relação apenas de amor com as ruas da cidade onde vivia – e que era muito diferente da Los Angeles de Bukowski. Sua relação com aquelas ruas e com aquela cidade era também de ódio, amor e ódio. Aliás, nos últimos tempos, o ódio estava se sobrepujando de maneira cada vez mais incisiva e aparentemente irreversível ao amor.

Bom, mas isso não fazia diferença, já que nada faz diferença quando nada começa a fazer sentido. Portanto, foda-se a cidade, fodam-se as suas ruas. Foda-se Los Angeles. Ah, foda-se o Bukowski também. Que Deus – ou o Demônio, se ele preferir – o tenha!

E, é claro, foda-se A Porta dos Fundos do Paraíso!


______________________________________Capítulo V

Tinha certeza de que mergulharia em cenários estranhos do passado. Mesmo assim, dobrou a esquina. A “rua principal” continuava lá, com a loja de artigos de pesca, outra de ferragens, outra de ervas e velas…
Parou em frente à loja que vendia pássaros e rações e ficou observando três aves em exposição numa gaiola redonda. Tivera uma daquelas em casa, anos atrás.

Chamava-a de Maria, embora não soubesse se era um macho ou uma fêmea. Até hoje não descobrira o nome daquela espécie de ave, mas talvez, um dia, resolvesse levar outra Maria para casa.

Prosseguiu a expedição de reconhecimento pela “rua principal”, constatando que alguns bares haviam fechado. Até os bares estavam em decadência, pensou. Em todo o caso, os que tinham resistido até que estavam cheios, para aquela hora da manhã. Lembrou-se, então, que era domingo, e que muitas das pessoas que estavam nos bares deviam estar emendando a noite do sábado. Em outros tempos, teria ficado por ali, mas como os tempos eram outros, continuou caminhando.

Os casarões antigos também resistiam, embora, se nada fosse feito com urgência, eles simplesmente ruiriam, da noite para o dia, ou do dia para a noite.selo 1

O velho mercado também continuava de pé. Na verdade, conforme lera nos jornais, havia sido reformado há não muito tempo. No entanto, para ele, o grande prédio tinha agora o aspecto de um enorme edifício-fantasma.

Mesmo que algumas pessoas caminhassem por seu interior e que alguns boxes continuassem a funcionar, vendendo frutas e verduras, não conseguia livrar-se da sensação de estar percorrendo uma imensa casa mal-assombrada.

Enquanto ouvia o barulho de seus próprios passos no saguão principal, teve uma breve alucinação.

O saguão, de repente, ficou cheio de gente indo e vindo, carrinhos transportando mercadorias para dentro e para fora, aroma de café expresso da lanchonete que funcionava logo na entrada misturando-se ao cheiro inebriante da grande variedade de frutas expostas em dezenas de bancas coloridas.

Sentiu-se um pouco tonto com aquela repentina e intensa profusão de odores, cores e sensações. Voltou ao presente e caminhou em direção aos fundos do mercado. Passou por vários espaços vazios e fechados por grades.

Chegou à parte de trás do prédio, onde as peixarias e os pequenos armazéns já não existiam mais. Grades enferrujadas também cercavam essas áreas agora desertas. Avistou finalmente os pequenos barcos, as catraias flutuando na água escura e suja do mar.

Avistou também um grupo de moradores de rua, homens e mulheres, discutindo em voz alta sobre alguma coisa a ver com uma garrafa que alguém havia quebrado ou roubado.

Prosseguiu pela calçada que contornava externamente o mercado e viu três ou quatro bares do outro lado da rua. Também estavam relativamente cheios para aquela hora da manhã, mas era evidente que os “clientes” estavam bem mais altos do que os freqüentadores dos bares da “rua principal”.selo 2

Recordou-se que, no seu tempo, aquela dicotomia etílica e toxicológica entre os bares das duas regiões já existia.
Lembrou-se também do pequeno e estreito bar onde, no seu tempo, só ia para comer e nunca para beber. E lá estava o bar, bem do outro lado da rua, que ele atravessou devagar, sob o sol quente daquela manhã de domingo.

Embora mais velhos, o casal de portugueses e os dois filhos ainda continuavam por ali, fazendo salgadinhos e sanduíches e servindo uma freguesia que parecia, como antes, sempre fiel. Felizmente, nem o homem nem a mulher, nem os dois rapazes o reconheceram, ou talvez tivessem fingido que não se lembravam dele. Pediu um pastel de camarão e uma Coca.
O pastel continuava excelente.

Pensava nisso e se perguntava por que aquela família permanecia ali, levando aquela vida que lhe parecia tão dura, em meio a uma vizinhança aparentemente tão hostil. Parecia óbvio que, àquela altura, já deviam ter acumulado dinheiro suficiente para mudar para outro local, mais agradável e menos perigoso.

A mãe e o pai já eram bem idosos e os filhos, dois homens maduros, provavelmente já eram casados e tinham suas respectivas famílias. Mas lá continuavam eles, servindo as pessoas, às vezes sorrindo entre si, às vezes fazendo comentários sobre bêbados ou mendigos que passavam pela rua em frente. Era incrível como o “sentido de família” parecia resistir e se sobrepor a tudo.

Saboreando o último pedaço do pastel, ele teve noção de que estava presenciando uma cena única, protagonizada por pessoas especiais, apesar da banalidade que tudo aquilo pudesse aparentar. Sem saber direito o motivo, sentiu-se emocionado e teve uma certa inveja daquelas pessoas, daquela família.selo 1

Saiu do pequeno e estreito bar e foi caminhando de volta à “rua principal”. Mas, ao chegar à esquina, deparou-se com vários homens, de diversas idades, sentados, em fila, nas soleiras das quatro ou cinco primeiras casas da rua transversal.

Todos, de um jeito ou de outro, tinham a expressão da derrota estampada em seus rostos e, em certo sentido, pareciam ter ultrapassado o limite do simples desespero, adentrando num distante e profundo pântano, onde, apesar da desolação e do isolamento, talvez houvesse uma certa paz, advinda da definitiva, avassaladora e irreversível resignação.

Que diabo estariam aqueles homens fazendo ali, sentados em fila em soleiras de portas, numa manhã de domingo de sol? O que estavam eles esperando acontecer? Teve receio de aproximar-se e perguntar, mas percebeu, com extrema clareza, que, por mero acaso ou capricho dos deuses, não estava também ali, naquele momento, sentado nas soleiras daquelas portas, naquela fila, esperando sabe-se lá o quê.

Voltou a se sentir meio tonto e, quando deu por si, tinha se afastado da “rua principal” e dobrado mais uma esquina. Lembrava-se também daquela rua transversal. Era ali que, vez ou outra, almoçava num restaurante japonês que ficava no meio da segunda quadra. E, como outros “fantasmas”, o restaurante, embora fechado, talvez devido ao horário, continuava lá.

No final da rua, junto a um canal de águas pluviais, deu de cara com uma feira de trocas de objetos velhos e roupas usadas. Ficou algum tempo perambulando entre os mais variados tipos de quinquilharias, que pareciam interessar a muita gente, visto o grande número de pessoas que também perambulava pelo local e examinava as ofertas estendidas ao longo das calçadas.

O que alguém faria com um liqüidificador tão velho como aquele? E o secador de cabelos, será que ainda funcionava? Quem compraria um fogão tão detonado assim? E os discos de vinil, será que alguém teria para vender também uma vitrola capaz de tocá-los?

Absorto por esses pensamentos, não percebeu que estava bem na esquina da rua onde havia morado, aos 10 ou 11 anos de idade. Dobrou mais uma esquina e sentiu novamente aquela tontura, agora já bem familiar. Poucas vezes teve sensação tão forte de como o tempo transformava radicalmente certos cenários do passado.selo 2

Não era, logicamente, uma cena de guerra, mas apenas e tão somente porque nos combates ali travados não haviam sido utilizadas armas de grande poder de destruição. Mas que uma batalha cruel acontecera naquela rua ninguém poderia negar. Como também era impossível não perceber que só os perdedores continuaram a viver no local.

Não restara uma única casa que não estivesse necessitando de reparos de emergência, pois todas davam a impressão de estarem abandonadas há longo tempo, embora fosse óbvio que eram habitadas. Parou finalmente na casa onde morara, que tinha sido transformada numa habitação coletiva. Aliás, várias casas da rua haviam tido o mesmo destino. Na última quadra, bem perto da esquina, três homens, sentados ao redor de uma carroça, em frente a uma casa quase em ruínas, passavam uma garrafa entre si e conversavam alto numa língua que ele, por mais que tentasse, não conseguia compreender.

Aquilo estava se tornando uma espécie de vício. Às vezes pela manhã, às vezes à tarde, ele colocava um bloco de notas e uma caneta no bolso e saía caminhando pela cidade. O objetivo era sempre o mesmo: encontrar um lugar onde se sentisse à vontade, para sentar e anotar pontos de referência em torno dos quais, posteriormente, começaria a contar uma história.

Ele, contudo, raramente se sentava em algum lugar durante essas caminhadas, que só terminavam quando se sentia totalmente esgotado e se arrastava de volta para casa. Seu bloco de notas permanecia vazio, mas sua cabeça havia se transformado num grande e caótico arquivo, alimentado pelas cenas que, durante suas caminhadas, iam sendo registradas por sua mente, se misturavam com suas memórias e davam forma a um filme que jamais teria fim e nunca seria assistido por alguém.

No dia seguinte, no entanto, ele colocava o bloco de notas e a caneta no bolso e saía novamente pela cidade.

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PARTE V

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_______________________________Capítulo VI

“Olhando para o mar, eu pensei que devia achar algo mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar. Mas não consegui pensar em nada mais importante, além do fato daquela porra daquele mar banhar a porra da cidade onde eu vivi grande parte da porra da minha vida. Contudo, se alguém tinha mesmo que contar a porra daquela história, eu estava disposto a tentar. Por quê?  Eu não fazia idéia. Isso, contudo, não importava. Afinal, era apenas uma porra de uma história. Era preciso, porém, encontrar alguém para escrever a tal história, já que eu mesmo, por uma série de razões que agora não vêm ao caso, nunca farei isso.”

A mensagem estava no e-mail. Jeremias também explicava como havia sido difícil localizá-lo. Depois foi direto ao assunto. Queria que ele escrevesse uma história, que, pelo que entendeu, tinha a ver com aquela cidade e com as pessoas que ali conviveram anos atrás.

Não tinha notícias de Jeremias há muito tempo, a ponto de às vezes perguntar-se se ele ainda estava vivo. Por isso, receber aquela mensagem foi meio que parecido com falar com os mortos – ou fazer contato com alienígenas improváveis.

De qualquer forma, a mensagem deixava claro que Jeremias não tinha morrido, continuava no planeta e fizera contato por um único motivo: queria que ele escrevesse uma história que, por algum motivo, Jeremias achava que João também conhecia, porque tinha participado dela.selo 4

Fechou o e-mail e voltou a trabalhar. A todo o momento, no entanto, lembrava da mensagem. Não via o mínimo sentido em, após tantos anos, Jeremias ter ressurgido das sombras para lhe pedir para contar uma história que ele não sabia qual era. Como também não via sentido algum no fato de Jeremias ter, de repente, decidido que contar a tal história era tão importante assim.

Levantou do computador e resolveu, para variar, dar uma caminhada. Sentia-se estranho, inquieto, sem condições de continuar trabalhando. Na terceira ou quarta esquina, percebeu que, inconscientemente, estava tentando lembrar-se de cenas e episódios envolvendo Jeremias. Era como se procurasse, com isso, entender que diabos Jeremias estava realmente pretendendo, já que aquela história toda de contar uma história estava lhe parecendo, cada vez mais, pura loucura.

E por que não? Talvez fosse exatamente isso: Jeremias havia finalmente enlouquecido e tudo não passava de um grande delírio seu. Afinal, muitos deles tinham pirado. Uns mais cedo, outros mais tarde. Talvez Jeremias fosse um dos retardatários.selo 2

Voltou para casa decidido a, de alguma maneira, “pesquisar” o atual estágio de sanidade de Jeremias. Só que a única informação de que dispunha sobre Jeremias era, agora, o seu e-mail. E não podia simplesmente mandar uma mensagem perguntando se ele havia enlouquecido. Precisava descobrir outros meios. O problema é que, justamente como uma espécie de antídoto à ameaça de loucura generalizada que se espalhou entre todos eles naquela época, João tinha se dedicado, nos últimos tempos, a, metodicamente, queimar todas as pontes que o uniam a Jeremias e a todos os personagens que, muito provavelmente, deviam fazer parte da tal história que Jeremias queria contar.

______________________________Capítulo VII

E também não havia absolutamente nenhuma poesia no fato de seu pinto estar agora amolecendo dentro da boceta melada dela, logo após terem gozado. Isto é, se é que ela também havia gozado.

Tempos atrás, uma outra mulher, com quem ele havia acabado de trepar, lhe disse que a última coisa que queria ouvir, depois de uma trepada, era o cara ao seu lado lhe perguntando se havia gozado.

Desde então, ele, que antes achava “elegante” perguntar se a parceira também tinha gozado, nunca mais abriu a boca após uma trepada. Somente ficava lá, de barriga pra cima, olhando o teto, como estava fazendo agora, depois de ter gozado dentro da boceta de Mô.

Apesar de se conhecerem há anos, era a primeira vez que ele e Mô trepavam. Os dois já haviam trepado com quase todo mundo ao redor, mas nunca tinha rolado entre eles. Mô resumiu a situação quando ele começou a enfiar seu pinto nela e ela disse: “Caramba, até que enfim. Eu pensei que isso nunca fosse acontecer com a gente”.
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Na verdade, o ácido que eles haviam tomado contribuiu muito para aquilo tudo. Era um ácido particularmente fraco, pois naquela época já era difícil arrumar alguma coisa de qualidade na cidade. No entanto, eles tomaram a pedra num dia atípico, totalmente atípico.

Naquele dia, desde a manhã, as rádios e as TVs estavam povoadas de boletins extraordinários transmitidos diretamente da capital do país. O presidente eleito, pouco antes de assumir, havia ficado muito doente, piorava a cada dia e, pelo que se ouvia e via, parecia estar prestes a morrer.

Nada disso seria tão dramático assim se o tal presidente não fosse o primeiro civil, eleito indiretamente pelo Congresso, depois de uma longa sucessão de generais mal-humorados e raivosos que ocupavam o poder desde o golpe de estado, muitos anos atrás.

Então temia-se que, se o presidente eleito doente morresse, os generais resolvessem voltar, quer dizer, resolvessem não sair de onde ainda estavam.

E Jeremias estava lá, de barriga pra cima, olhando pro teto do apartamento de Mô, quando seus olhos se desviaram um pouco para a televisão ligada, sem som.

As imagens se sucediam com rapidez, flashes de locutores e locutoras, tendo ao fundo a imagem do Congresso e do palácio do governo. Ele levantou da cama e foi aumentar o som da TV.selo 3

“Repetimos, o presidente eleito, vítima de uma prolongada doença de causa ainda não determinada, acaba de falecer.”

– Bom, aconteceu. Posso usar teu telefone? Preciso ligar pro jornal?”,Jeremias perguntou.

– Liga aí”, respondeu Mô.

– Tenho que ir pra casa. Eles vão mandar uma viatura lá pra me pegar e levar pro aeroporto”, disse Jeremias, após desligar o telefone.

– Tá bom. Então, tchau”, despediu-se Mô, no momento em que Jeremias já estava com a mão na maçaneta da porta de saída do apartamento dela.

Embora o ácido fosse fraco, entrar às pressas num avião ainda viajando não era certamente uma das melhores sensações do mundo. Por isso Jeremias procurou colocar as idéias em ordem logo depois da decolagem.

Não teve muito sucesso. Cada vez que fechava os olhos, milhões de luzinhas coloridas pareciam acender-se em sua cabeça. Além disso, Tom, o fotógrafo que iria acompanhá-lo na cobertura da morte do presidente que não tinha sido presidente, estava bêbado e insistia em lhe contar, detalhadamente, por que seu último relacionamento, com uma garota japonesa de 17 anos, não tinha dado certo.

Então Jeremias resolveu encher a cara também e deixar a seqüência dos fatos a cargo da providência, se que essa coisa existia.

Mas a providência, ou seja lá o que for, não foi lá muito generosa com Jeremias, nem com Tom.
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Logo que chegaram ao aeroporto da capital, eles souberam que, para entrar no local onde o cadáver do presidente que não havia sido presidente estava sendo velado, era necessário um tipo de credencial que o seu jornal não havia providenciado.
Repórter e fotógrafo ainda tentaram argumentar, mas acabaram sendo confinados a uma espécie de galpão, onde lhes disseram para permanecer, junto a outros jornalistas na mesma situação, “aguardando”, o que ninguém explicou.

Por sorte ou azar, no galpão, Jeremias e Tom encontraram Juan, um jornalista peruano, que, por sorte ou azar, conseguira levar lá pra dentro uma garrafa de pisco. Então Jeremias e Tom resolveram continuar enchendo a cara, deixando a seqüência dos fatos a cargo da providência, se é que essa coisa existia.

A partir daquele ponto, naquele galpão, Jeremias tem apenas uma vaga idéia de tudo o que aconteceu a seguir, não só na capital do país, mas também na cidade em que o presidente que não foi presidente havia nascido, que ficava em outro estado e onde foi realizado o enterro.

No meio da densa névoa que se instalava na sua cabeça cada vez que tentava recordar de tudo aquilo, a única coisa que lhe vinha à mente era a história de um livro que havia lido anos atrás, chamado “Medo e Delírio em Las Vegas”, de um tal de Hunter Thompson, que contava as aventuras e desventuras desse repórter norte-americano quando foi fazer uma reportagem qualquer na cidade dos cassinos.

Não que tenham acontecido tantas loucuras naquela viagem em perseguição ao cadáver do presidente que não foi presidente como aconteceram na história contada no livro de Thompson, mas Jeremias compreendeu que, como no livro, as coisas podiam realmente sair de controle, sendo que a única coisa a fazer, em situações do tipo, era continuar enchendo a cara e entregando a seqüência dos fatos à providência, se é que essa coisa existia.

De qualquer forma, quatro dias depois, Jeremias estava de volta à sua cidade. E o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi: “Será que a Mô topa trepar comigo de novo”?

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PARTE VI

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____________________________________Capítulo VIII

Não era exatamente uma reprodução exata do e-mail que Jeremias lhe enviara alguns dias antes. A linguagem original era truncada, volta e meia havia frases soltas, expressões em inglês (várias delas escritas de forma incorreta) e algumas palavras num dialeto semelhante ao castelhano que Jeremias parecia ter inventado para se expressar sempre que não encontrava as palavras que queria.

Havia, no entanto, uma certa coerência naquele fragmento de história que ele tentava contar. Ou seja, Jeremias conseguia, pelo menos, passar a idéia do que queria dizer. Talvez por isso João tenha decidido perder um tempo considerável tentando dar um pouco mais de fluidez e ritmo ao texto que Jeremias mandara. Só depois de terminar de mexer no texto, percebeu que, embora houvesse decidido no dia anterior não pensar mais em Jeremias nem na sua história maluca, ele estava justamente começando a fazer o que Jeremias queria: começara a escrever a história que Jeremias achava tão importante contar.loucura1

Nos tempos em que andavam sempre juntos, Jeremias parecia ter um poder irresistível de envolver as pessoas próximas em sua loucura particular, e João era sem dúvida uma das suas principais vítimas. Tanto que, quando se separaram, João passou muito tempo tentando distinguir as coisas das quais realmente gostava e nas quais realmente acreditava das coisas que pensava gostar e acreditar apenas porque Jeremias dizia que gostava e acreditava. Ao pensar nisso, sentiu um leve arrepio. Talvez Jeremias estivesse fazendo de novo. Talvez, mesmo à distância, estivesse exercendo seu poder de enlouquecer João com essa história de lhe pedir para escrever uma história que ele não sabia qual era, como começava, nem como iria terminar.selo b

E, por falar nisso, João se indagou se seria aquele primeiro e-mail o início da tal história ou Jeremias havia simplesmente sentado num computador qualquer, talvez numa lan house suja e escondida, bem ao seu estilo, aliás, e escrito e mandado a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Não seria surpresa. Aliás, nada em se tratando de Jeremias era surpresa. Nunca tinha sido no passado, e não seria agora.

Nos dois ou três dias que se seguiram, embora João estivesse ocupado com a revisão de alguns textos que precisava entregar até o final do mês, ele checava com freqüência sua caixa postal, com um misto de expectativa e medo em relação à chegada de uma nova mensagem de Jeremias. Na verdade, percebeu que, por mais incrível que parecesse, a possibilidade de Jeremias não dar mais sinal de vida o deixava bem mais apreensivo do que a hipótese de Jeremias levar adiante aquela idéia maluca de contar a tal história.

Passaram-se vários dias e Jeremias não deu qualquer sinal de vida.

Finalmente, ele acordou numa madrugada e, como um sonâmbulo, foi até o computador e escreveu uma mensagem para Jeremias: “E aí? Vai mandar mais ou já mudou de idéia sobre contar a tal história? Outra coisa: aquele negócio que você me mandou é o começo da história ou pode ser colocado em qualquer lugar na seqüência do texto? Mais uma coisinha: a história vai ser só sobre trepadas ou a gente pode esperar algo mais, digamos, abrangente?”


Não havia o mínimo sentido naquilo, mas, quando Carlos disse “É só pra gente sentir a sensação”, Jeremias achou que era uma ótima idéia. Então eles combinaram de comprar uma quantidade razoável de cocaína. Recuperariam o dinheiro investido vendendo para os amigos e o “lucro” ficaria por conta da poeira de graça que poderiam consumir com as “sobras”.

Afinal, era “só pra sentir a sensação” de ter uma grande quantidade nas mãos.

Ter uma grande quantidade nas mãos era realmente uma sensação diferente. Não havia aquele tão conhecido medo de que a coisa acabasse de uma hora para outra e fosse preciso sair em expedição pela cidade para um reabastecimento de emergência, em geral, com mercadoria de péssima qualidade. 9334

Era só ficar “lá dentro”, cheirando e cheirando e cheirando, até não ter mais vontade. E quando a vontade voltasse, era só cheirar, cheirar e cheirar outra vez, até a vontade passar de novo.

A única coisa que não permitia que esse nirvana branco fosse completo eram as batidas na porta que Jeremias e Carlos volta e meia ouviam. Como imaginavam que deviam ser as pessoas a quem haviam anunciado que tinham poeira de boa qualidade e barata, simplesmente fingiam que não havia ninguém em casa, até que as batidas na porta cessavam. Então voltavam a cheirar em paz.

Foi depois de uma dessas interrupções que Jeremias, após recomeçar a cheiração, percebeu que já anoitecera e ligou a luz da sala. Ao olhar para Carlos, viu que seu rosto estava cheio de marcas roxas de diversos tamanhos e formatos.

– Ou essa cocaína é alucinógena ou você tá com a cara toda manchada, disse Jeremias.overdose9pt

Carlos correu para o banheiro e Jeremias ouvi-o gritando: “Caralho, eu tô todo pintado. Que porra é essa?”

A porra era um princípio de overdose, pelo menos foi isso que o médico disse, após prestar um atendimento de emergência a Carlos, que já chegou ao pronto-socorro quase não conseguindo respirar.

O problema foi que o médico não disse só que era overdose de cocaína. Ele disse também que ia chamar a polícia para fazer um boletim de ocorrência.

– Foi um atendimento de urgência motivado pelo uso excessivo de uma substância ilegal, afirmou o médico, como se Jeremias e Carlos não estivessem carecas de saber os motivos que os levaram àquela merda toda.

Convencer o médico a não meter a polícia no meio não foi fácil, mas finalmente eles conseguiram sair do PS. Sem algemas.

– E aí, vamos voltar lá pra casa?, perguntou Carlos.

____________________________________Capítulo IX

Não fazia idéia se aquele segundo e-mail de Jeremias havia sido enviado antes ou depois de ele ter lido a mensagem que João lhe mandara, se é que Jeremias se preocupava em ler as mensagens que chegavam à sua caixa postal.

Dessa vez, Jeremias não havia escrito a respeito de trepadas, mas também não tinha dado qualquer indicação sobre se aquele novo texto obedecia a alguma seqüência de como a tal história deveria ser contada. Resumindo, era bem provável que Jeremias não houvesse lido a mensagem que João lhe enviara, e se o fizera, não tinha dado a mínima atenção ao que João escrevera.

Contudo, o que mais surpreendeu João nesse segundo e-mail foi a coerência e a fluidez do texto. Não havia absolutamente nada que lembrasse a linguagem truncada e confusa da mensagem anterior. Tanto as expressões em inglês quanto as do estranho dialeto castelhano-alienígena haviam sumido. Por isso, João praticamente transcreveu o que Jeremias havia escrito, limitando-se a acrescentar e suprimir alguma pontuação e alguns parágrafos. As diferenças eram tão grandes que a primeira e a segunda mensagem pareciam ter sido escritas por duas pessoas totalmente diferentes. selo 3

Esse pensamento, João não sabia bem por que, lhe provocou um calafrio, que começou na base da espinha e explodiu bem no alto da sua cabeça.

Decidiu então não tentar mais qualquer tipo de comunicação com Jeremias, até porque estava ficando claro que isso era inútil. Apenas aguardaria que Jeremias desse sinal de vida. Passaram-se alguns dias sem que nenhuma mensagem chegasse à caixa postal de João. Por isso, ele começou a considerar a possibilidade de que Jeremias simplesmente tivesse resolvido abandonar o seu projeto maluco de contar a tal história. A hipótese perturbou João, e ele ficou ainda mais perturbado ao perceber o quanto aquilo o incomodava. Afinal, desde o início, vinha considerando uma espécie de pesadelo aquela coisa toda de Jeremias haver entrado em contato depois de tantos anos, e ainda por cima para pedir que o ajudasse a contar uma história qualquer que ele acreditava importante ser contada. Era uma espécie de pesadelo do qual, de uma hora para a outra, João esperava simplesmente acordar.

Mas agora ele se preocupava com a possibilidade de Jeremias não me enviar mais nenhum e-mail com a continuação da tal história. Merda, esses sentimentos contraditórios não faziam o mínimo sentido.

Talvez por isso, logo em seguida, uma idéia totalmente absurda, mas irresistível, passou pela cabeça de João. E se tudo, absolutamente tudo, desde o começo, não passasse de uma alucinação, de um delírio seu. paranoia

Talvez Jeremias não tivesse enviado nenhuma mensagem e João tivesse imaginado tudo aquilo, os dois pequenos fragmentos de textos em cima dos quais ele trabalhara, a linguagem truncada e as expressões erradas e estranhas do primeiro e-mail, a narrativa fluente e clara do segundo, enfim, tudo, tudo não passaria de um grande delírio.

Assim, as duas narrativas, a que começava com a trepada com uma tal de Mô e a que contava uma passagem de dois sujeitos cheirando cocaína num apartamento, seriam também, é lógico, fruto da imaginação de João, e não um relato de situações teoricamente vividas por Jeremias.

Embora essa hipótese fosse, como o próprio João admitia, absurda, ele ficou realmente preocupado. Então foi procurar na sua caixa postal os três e-mails que Jeremias havia mandado ou que ele imaginava que Jeremias havia mandado. Só aí se lembrou de que, um dia antes, tentando inutilmente localizar uma mensagem antiga com orientações sobre um pedido de trabalho de condensação de um texto, ficara tão puto com a busca frustrada, devido à grande quantidade de lixo acumulada no seu correio eletrônico, que, sem querer, deletara todos os e-mails arquivados.

Ou seja, agora não havia como, naquele momento, comprovar se Jeremias havia mesmo mandado os e-mails ou se ele estava no meio de um surto violento, daqueles que já enfrentara tantas vezes no passado, mas que, nos últimos tempos, nunca mais tinham se repetido, a ponto de João achar que estava totalmente “curado”.

Percebeu que precisava urgentemente se acalmar e o jeito foi convencer-se de que as mensagens de Jeremias eram mesmo reais e que o delírio, na verdade, havia se insinuado quando começara a cogitar a hipótese de que estivesse delirando. O delírio era achar que estava delirando. Simples assim! E isso o acalmou.

Contudo, outro pensamento inquietante veio à cabeça de João: se ele já sabia que lidar com Jeremias, mesmo à distância, sempre envolvia certo risco de enlouquecer, por que diabos tinha deixado que Jeremias o arrastasse para aquela piração estúpida de contar uma história que só Jeremias parecia conhecer e ter necessidade de contar ?

A cabeça de João começou a latejar. Precisava de ar fresco. Abriu a janela e respirou o mais fundo que pôde. Ficou tonto e quase desmaiou. Depois abriu a porta e saiu.

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PARTE VII


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__________________________________Capítulo X

Seria algum daqueles muros que ele teria de derrubar pra escapar do beco onde havia se metido?

A coisa que mais mudara na rua era o tamanho dos muros das casas, que agora ficavam escondidas atrás de altas paredes de concreto.

Na verdade, como constatou a seguir, não havia assim tantas casas protegidas por altos muros na rua, apenas umas cinco ou seis. Só que estas eram significativas em sua memória.

Há exatamente 10 anos, quando morava naquela rua e caminhava por ela, os jardins e as varandas daquelas cinco ou seis casas podiam ser vistos da calçada. Hoje isso era impossível. Sinal dos tempos, pensou.

O fato de estar caminhando por aquela rua há exatos 10 anos após ter se mudado devia significar alguma coisa.
Sempre evitara não só aquela rua, mas até mesmo aquela vizinhança.

Tudo é bom quando termina bem, dizia o ditado. Ali, as coisas tinham terminado mal e, portanto, embora soubesse que sua sensação não correspondia à realidade precisa dos fatos, a impressão era de que tudo o que acontecera ali havia sido ruim.

Mesmo as coisas boas – e racionalmente ele sabia que elas existiram – não mereciam ser recordadas, já que, na sua visão, tudo tinha terminado mal.

Aquela rua, aquelas casas e várias das pessoas que provavelmente ainda viviam ali haviam assistido, ano após ano, ele se afundando num mar de álcool e drogas.selo b

Muitas outras ruas, muitas outras casas e muitas outras pessoas tinham também presenciado seu progressivo e obstinado afogamento. No entanto, quando o pesadelo finalmente terminou, ele voltou gradativamente a caminhar por aquelas outras ruas, entrar naquelas outras casas e conversar com aquelas outras pessoas.

A única exceção era aquela rua específica, onde tinha morado por 13 longos anos e por onde agora caminhava, surpreso com os muros altos que protegiam as cinco ou seis casas das quais, no passado, ele gostava de observar os jardins e as varandas.

Então, por que diabo tinha vindo parar ali, naquela manhã ensolarada de sábado?

Sabia que não tinha sido um acidente.

Quando iniciou sua caminhada, não tinha idéia de para onde ia. Chegando à praia, decidiu que, ao contrário do que geralmente fazia, não iria na direção do porto, mas para o lado oposto.

No caminho, pensou em como sua percepção da cidade estava mudando. Sempre preferira caminhar pelo passeio da praia em direção ao porto. Gostava mais daquele trecho, praia, achava mais bonito, acolhedor.

Naquele dia, porém, quando pensou em seguir o roteiro habitual, logo mudou de idéia, sentindo que estava farto de caminhar por aquele lado da praia. Queria uma paisagem diferente e a paisagem diferente estava na direção oposta.

Seguiu então para o outro extremo da ilha.bukowski2

No caminho, concluiu que podia muito bem não se tratar de uma mudança na sua percepção da cidade, mas simplesmente de uma mera vontade de variar de paisagem.

Contudo, ao atravessar o primeiro canal, já tinha decidido que sairia da avenida da praia e entraria no próximo canal.

Estava na segunda quadra desse segundo canal, quando se deparou com outro canal menor, transversal ao canal por onde caminhava e margeado por grandes árvores. Esse canal levava a um parque cercado onde havia algumas espécies de animais e se cultivavam orquídeas.

Não lhe passou pela cabeça ir até o parque, mas lembrou-se de que tinha um amigo que morava num prédio em frente ao tal parque. Por isso, dirigiu-se para o canal transversal margeado por grandes árvores.

Não tinha intenção de visitar o amigo, até porque não costumava visitá-lo nunca em sua casa e também porque não fazia a mínima idéia de qual era o prédio onde ele morava.

Pensou que talvez pudesse encontrá-lo na rua, já que ele sabia que o amigo costumava levar seu cachorro para passear. Como seu amigo não estava passeando com o cachorro naquele momento, ele obviamente não o encontrou e seguiu adiante.

Quando percebeu, estava se encaminhando para a rua que margeava a linha do trem. Olhou para o outro lado e viu uma jovem negra, vestida com andrajos, perambulando pelos trilhos.

Quando ela o viu, do outro lado da rua, levantou uma lata que carregava numa das mãos e ofereceu a ele. Ele deduziu que a jovem, já totalmente fora de órbita, estava lhe oferecendo o resto da pedra de crack que havia ou que ela achava que ainda havia na lata. Com um aceno de mão, ele agradeceu e deu a entender que não queria.Leslie-crack0

Mais improvável do que a presença daquela garota ali, naquela hora da manhã, só mesmo o fato de ela ter lhe oferecido um pega.

Em todo o caso, seguiu em frente, pela rua que margeava a linha férrea, pensando que, no seu tempo, nunca havia encontrado ninguém fumando crack na rua por ali, muito menos àquele hora da manhã. Bem, ponderou ele, no seu tempo as pessoas ainda fumavam crack em suas casas e aquela rua o estava levando exatamente para a rua onde havia morado muito tempo atrás.

Não pretendia entrar na tal rua, só dar uma olhada da esquina. Mas fez as contas e concluiu que faziam exatamente dez anos que ele havia se mudado dali, talvez até o mês fosse o mesmo, quem sabe até o dia.
Hesitou um pouco, mas acabou virando a esquina e entrando na tal rua.

Talvez devido à luz bem clara e amarela do sol do início do outono, talvez o efeito de seus óculos escuros, talvez conseqüência de algo inexplicável acontecendo dentro dele, o fato é que a rua parecia ter se transformado num túnel sem teto.1207305995_el_muro_por_pablof__flickr

Queria parar e observar melhor as casas, queria tirar os óculos escuros para enxergar melhor, queria se conscientizar de que estava fazendo uma coisa importante, que estava enfrentando alguns de seus mais aterrorizantes fantasmas.

Queria muitas coisas, mas não fez nenhuma delas. Apenas percorreu rapidamente as duas quadras que o separavam da próxima esquina e saiu do túnel.

Sim, tinha feito uma coisa importante, sabia disso. Mas o que diabo tinha feito e para que serviria tudo aquilo?

Como a maioria das coisas que andava fazendo ultimamente, também aquela não fazia nenhum sentido.

E que porra de muro ele precisava derrubar pra escapar do beco?

___________________________________Capítulo XI

Jeremias e Cris caminhavam pela praia, deixando que o mar de vez em quando molhasse seus pés.

Aquilo havia se transformado em mania nas últimas semanas, caminhadas pela praia no final das tardes daquele verão.

E aquele verão parecia bem mais longo do que qualquer outro verão de que Jeremias se lembrasse. Na verdade, os dias é que pareciam cada vez mais longos, talvez pelo fato de que ele e o grupo de pessoas com que andava estarem convencidos de que viviam um momento especial, naquela cidade, naquele ano, naquele verão.

Lógico que tudo poderia ser apenas e tão somente efeito daquele fumo forte que, segundo diziam, chegara à cidade dentro de latas que o mar tinha trazido.
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De qualquer forma, Jeremias não estava nem um pouco preocupado em descobrir as causas de nada.
Preferia sentir os efeitos que aquele verão parecia estar provocando nas pessoas, pelo menos naquelas pessoas que Jeremias costumava sempre cruzar, nas ruas e nos lugares onde costumava ir.

Ele não conversava com Cris sobre isso. Aliás, quase ninguém conversava sobre isso com ninguém, mas havia no ar a sensação de que todos estavam sentindo a mesma coisa.

Então Jeremias e Cris avistaram um navio deixando o porto e saindo mar afora pela barra.

– Dá vontade de estar lá dentro, não dá?, perguntou Cris.

– Com certeza, respondeu Jeremias.

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Como diabo tinha vindo parar ali?

Ora, ele sabia muito bem como tinha vindo parar ali.

E isso também não importava, porque ele agora estava ali e não parecia haver qualquer chance de,a curto prazo, poder se livrar daquilo.

Aliás, se livrar daquilo significava ter de enfrentar tudo o que havia ficado do lado de fora, o que não era uma perspectiva nada animadora.

Então, por enquanto, a melhor alternativa era tentar agüentar aquilo por algum um tempo, como já havia feito antes em ocasiões parecidas.

Logo tudo aquilo se resolveria. Era só não entrar em pânico.

Na verdade, Jeremias procurava manter esses pensamentos na cabeça apenas para tentar se acalmar um pouco. Desde que chegara ali e o efeito da última dose se evaporara de seu sangue, ele não conseguia parar de tremer e de se contorcer.

As pessoas em volta pareciam estar acostumadas a essas situações. Simplesmente olhavam pra ele, sorriam e diziam que aquilo iria melhorar.

Mas talvez o que Jeremias mais temesse fosse justamente isso, melhorar.selo 3

Se as fisgadas no estômago e a tremedeira parassem, ele ficaria lúcido o suficiente para perceber exatamente onde estava.

E, por enquanto, preferia ficar daquele jeito, tremendo e sentindo fisgadas na barriga.

Aquilo, pelo menos, ele já conhecia de cor.

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Anfetamina e sexo não combinavam. Pelo menos para ele. E, como o álcool potencializava o efeito da anfetamina, anfetamina, álcool e sexo também não combinavam. Pelo menos para ele.

Então Jeremias descobriu que apenas álcool, bastante álcool, combinava bem com sexo, bastante sexo.

Não foi uma “iluminação instantânea”. Aconteceu aos poucos, mas a descoberta só se tornou definitiva com Cris.

No começo, eles tinham o que se poderia chamar de uma “grande amizade”, o que, para Jeremias, chegava a ser surpreendente, já que havia metido na sua cabeça que jamais conseguiria ser simplesmente amigo de uma mulher.

Talvez apenas para comprovar que sua teoria estava certa, ele acabou caindo na besteira de ir se apaixonando por Cris e, quando percebeu, estava de quatro, lambendo o chão por onde ela passava.

Então Jeremias teve de colocar à prova outra de suas teorias sobre relacionamento amoroso: sexo e paixão nunca funcionavam direito.

Talvez apenas para comprovar que essa sua teoria também estava correta, ele broxou gloriosamente nas duas vezes em que tentou transar com Cris.

Ela, compreensiva como uma “boa amiga”, disse que estava tudo bem. Mas para Jeremias estava tudo mal, muito mal.

E ele precisava dar um jeito de virar o jogo, porque não agüentava aquela sensação de ter sido expulso de campo antes da partida ter começado.

Então, um dia, ligou novamente para Cris e a convidou para sair. E ela, como “boa amiga”, aceitou.
A única maneira que encontrou de controlar a ansiedade até o momento de pegar Cris em sua casa foi ficar enchendo a cara num bar da vizinhança.

Quando finalmente cruzou com ela, percebeu, de repente, que Cris era realmente uma mulher bonita, e gostosa.

Foram para o apartamento que um amigo havia emprestado. Lá, além de uma cama, havia também uma garrafa de conhaque quase cheia.

Antes de qualquer coisa, Jeremias se serviu de uma dose generosa e não se importou nem um pouco como o fato de Cris não querer acompanhá-lo.

É lógico que a pele de quase todas as mulheres é geralmente macia, mas a pele de Cris era a mais macia que Jeremias jamais tinha tocado.
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O interessante é que só daquela vez – e nunca das duas vezes anteriores – ele estava se dando conta disso.

Talvez porque agora estivesse passando sua mão pelo corpo nu de uma Cris que, ele acabara de descobrir, era somente uma mulher, e não a Cris-Deusa que antes povoava seus sonhos de apaixonado.

Quando entrou dentro dela, sentiu, pela primeira vez, a sensação de conquista.

Então Jeremias já não se sentia mais como Jeremias, nem sentia que Cris era mais Cris.

Havia apenas um macho e uma fêmea sobre os lençóis daquela cama emprestada.

E Jeremias perdeu totalmente o controle, conquistando e possuindo aquela fêmea que parecia lhe permitir todas as conquistas e posses possíveis.

Então tudo explodiu num turbilhão de estilhaços, contorções e gemidos.

– Você está querendo me matar?, perguntou Cris.

– Desculpe, respondeu Jeremias.

Como “boa amiga”, Cris o desculpou por seu incontrolável ímpeto de conquista e posse.

Jeremias, contudo, não achou que ela estivesse sendo realmente sincera.

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Agora, olhando para a porra daquele mar e tentando ainda achar alguma coisa mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar, Jeremias percebia claramente que havia uma linha divisória entre aquele verão, em que ele e Cris caminhavam pela praia nos fins de tarde, e os verões que se seguiram. Essa linha era branca e tinha nome: cocaína.

E daí?, pensou Jeremias, levantando-se e limpando a areia da bunda.

Talvez não houvesse história nenhuma para ser contada. Talvez ele estivesse apenas tentando dar um significado a tudo o que acontecera, porque era muito doloroso concluir que tudo aquilo não significara absolutamente nada de especial pra ninguém, a não ser pra ele próprio.

Talvez só ele se interessasse em ler aquela história que ele mesmo achava que precisava contar.

Afinal, como ele mesmo já havia percebido, era apenas uma porra de uma história.

cocaina
PARTE VIII

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_______________________________________Capítulo XII

Estava lá, numa manhã de terça-feira. Um longo texto sem absolutamente nenhum parágrafo. Sua primeira sensação foi de alívio. Começou a sorrir. Afinal, não estava maluco. Quer dizer, estava só um pouco maluco, já que chegara a pensar que estava imaginando tudo aquilo, o que era, sem dúvida, sintoma de um certo grau de insanidade.

Mas agora João percebia que havia deixado passar um detalhe básico. Como tinha guardado de memória o endereço eletrônico de Jeremias, quando acidentalmente detonou o conteúdo da sua caixa postal, poderia simplesmente ter enviado uma mensagem para ele e tudo se resolveria sem tanto estresse.

Quer dizer, tudo isso em termos, raciocinou logo a seguir.

Se Jeremias respondesse a sua mensagem, isso significaria que ele não havia imaginado tudo, ou seja, não estava no meio de um surto qualquer. Havia apenas sofrido um leve desequilíbrio emocional, que o levara a fantasiar sobre o fato de estar surtando. Simples assim.

Mas, por outro lado – e sempre havia algum outro lado -, se Jeremias não respondesse ao meu e-mail, isso significaria que havia uma grande probabilidade de ele ter realmente surtado. Contudo, também nesse caso, sempre haveria ainda a possibilidade de Jeremias simplesmente não ter checado o seu correio eletrônico por vários dias, ou mesmo de ter demorado a responder a sua mensagem. Isso traria João, então, de volta à hipótese do leve desequilíbrio emocional, que o levara a fantasiar sobre o surto. Simples assim.

De qualquer forma, a nova mensagem de Jeremias, encaminhada a partir do mesmo e-mail que João guardara na memória, estava ali, naquele momento, bem na sua frente, naquela manhã de terça-feira. E isso encerrava a polêmica sobre surtos, leves desequilíbrios emocionais e delírios, pelo menos por enquanto.

selo b

Deduziu então que Jeremias usara as letras maiúsculas no início de algumas frases para sinalizar o ponto final das frases anteriores. Depois de testar o sistema num trecho mais longo do texto, constatou que sua teoria estava certa. Cada maiúscula no início de uma frase indicava o ponto final da anterior. Mas por que diabos Jeremias tinha feito uma merda dessas? E onde estavam as vírgulas, os pontos e vírgulas, os pontos de interrogação e exclamação, enfim, toda a pontuação que torna qualquer texto inteligível a quem o lê?

Brincadeira idiota, estúpida, mesmo para alguém que às vezes conseguia ser tão idiota e estúpido quanto Jeremias. Ora, então ele que se fodesse.

João desligou o computador e pegou o violão.

Horas depois, já no período da tarde, voltou ao computador. Embora tivesse um monte de trabalho atrasado para acabar, a primeira coisa que fez foi abrir o recém-chegado e-mail de Jeremias, com o novo trecho da história maluca que ele insistia em contar, dessa vez sem parágrafos ou qualquer pontuação, exceto por algumas letras maiúsculas iniciando frases, de quando em quando, e indicando os pontos finais das frases anteriores.

Inexplicavelmente, porém, quando João começou a ler o texto novamente na tela do computador, todos os parágrafos, pontos finais, vírgulas e demais ícones de pontuação começaram a pipocar na sua cabeça, à medida que seus olhos deslizavam pela seqüência das linhas. Pegou depressa o notebook e passou a transcrever “mediunicamente” o “texto mágico” que só ele, naquele instante, conseguia enxergar na tela do computador de mesa.

Então, vários fragmentos do que parecia ser uma mesma história foram rapidamente se tornando coerentes, se é que havia alguma coerência naquela história que Jeremias achava tão importante contar.

__________________________________Capítulo XIII

Naquele verão, eles costumavam também ir até a Boca ver um grupo de amigos jamaicanos tocarem.

A cena era sempre surreal. Aqueles homens negros com seus instrumentos no palco saudavam a chegada daqueles homens brancos, que certamente não eram cafetões, acompanhados daquelas mulheres também brancas, que certamente não eram putas, e todos dançavam até o amanhecer ao som dos reggaes que os jamaicanos tocavam para homenagear seus inusitados e extasiados visitantes.

Com o sol já no céu, músicos e dançarinos geralmente caminhavam pelas ruas da Boca até um determinado bar que ficava bem perto do porto. Ali tomavam uma última cerveja e depois cada um seguia o seu caminho.

NEGRO TOCANDO - 60x50cm - 2004Naquele dia, Nina pediu que Jeremias a acompanhasse até em casa, pois ainda se sentia demasiadamente bêbada para pegar um táxi sozinha. Durante todo o trajeto, Nina dormiu com a cabeça encostada no ombro de Jeremias, que teve que acordá-la ao chegarem em frente ao prédio onde ela morava, pois Jeremias não tinham nem um puto para pagar a corrida para o motorista.

Embora ele soubesse que Nina já havia transado com alguns de seus amigos, nunca, até aquele momento, passara pela cabeça de Jeremias ter alguma coisa com ela.

Nunca…até aquele momento, porque, naquele momento, Nina resolveu tomar um banho “pra despertar”, pois precisava ir trabalhar dali a duas horas.

Perguntou a Jeremias se ele não faria um café, enquanto isso.

Jeremias perguntou onde estavam o pó, o bule e o coador.

Já no chuveiro, Nina explicou a ele onde estavam as coisas e Jeremias, bebendo uma cerveja que acabara de abrir, começou a preparar o café para Nina “despertar”.

Nina tinha seios bem grandes, Jeremias lembrou, enquanto esperava a água ferver.

E Nina, descendente de poloneses, era uma loura natural.

Será que os pentelhos dela eram tão louros quanto seus cabelos, pensou Jeremias, enquanto jogava água fervente em cima do pó de café.

Ele nunca tinha trepado com uma mulher de seios tão grandes e pentelhos bem louros, concluiu Jeremias, enquanto colocava o café dentro da garrafa térmica e dava o último gole na sua cerveja.

Nina saiu do banheiro enrolada numa toalha azul.

Jeremias apontou para a garrafa térmica em cima da pia.

Nina pegou a garrafa, perguntou se Jeremias queria e, diante da negativa, serviu-se de café no copo onde Jeremias acabara de tomar cerveja e esquecera de lavar.

Nina veio sentar-se no sofá, ao lado de Jeremias, e disse:

– Você já fez música pra uma porção de gente, né? Eu queria que você fizesse uma música pra mim.

– Mesmo?

– Mesmo!

A visão de Nina totalmente nua, seus seios grandes de mamilos escuros e pontudos, a penugem amarela que cobria suas coxas, mas principalmente seus pentelhos quase tão louros quanto seus cabelos, foi definitivamente demais para a libido já descontrolada de Jeremias.

Resultado: bastou que eles apenas começassem a se esfregar para que Jeremias gozasse inapelavelmente na penugem amarela das coxas de Nina.

Desculpando-se, Jeremias disse que aquilo nunca havia acontecido antes, confessando a Nina que ele tinha ficado extremamente excitado ao vê-la completamente nua pela primeira vez.

Nina pareceu sentir-se satisfeita ao saber que havia provocado tal reação em Jeremias somente com sua nudez.

Disse que não tinha problema, que eles tentariam outra vez, mas que agora estava atrasada para ir trabalhar.

Despedindo-se dele, já na porta do prédio, Nina arrematou: “Não esquece da minha música, hein?”

Caminhando em direção à praia, Jeremias lembrou que, embora ejaculação precoce nunca tenha sido um de seus maiores problemas em relação ao sexo, não fora com Nina, na verdade, a primeira vez em que terminara sem nem ter começado.prostituta

Anos atrás, num fim de noite, Carlos, Leonardo e Júlio o haviam carregado para a Boca. Jeremias, até então, só tinha trepado três vezes na vida. Aos 16 anos, transou com três putas naquela mesma Boca. A primeira vez foi com uma mulher bem mais velha. Ele estava tão nervoso que até hoje não compreendia como conseguiu ficar de pau duro. A puta, é lógico, logo percebeu que era a primeira vez de Jeremias. Então disse pra ele ficar calmo, que ela faria tudo “direitinho e gostoso”.

Se foi tudo “direitinho e gostoso” Jeremias não saberia dizer, mas que tudo foi bem rápido, não havia a menor dúvida. Com a precisão técnica adquirida ao longo de muitos anos de estrada, a mulher, percebendo que o pinto de Jeremias já estava duro, deitou-se na cama, abriu bem as pernas e puxou Jeremias pra cima dela. Logo, logo Jeremias estava gozando pela primeira vez dentro da boceta de uma mulher.

Ainda contando o dinheiro que Jeremias havia lhe dado, a puta disse que tinha sido um “prazer” tirar o seu cabaço. Jeremias, sem conseguir dizer nada, virou-se e foi embora, pelo mesmo corredor comprido e mal iluminado pelo qual tinha entrado.

A segunda puta com que Jeremias trepou na Boca, aliás, no mesmo puteiro da primeira vez, era bem mais nova, talvez tão nova quanto ele ou pouco mais velha. Fosse por isso ou quem sabe por que já não se sentisse tão apavorado, Jeremias conseguiu até a curtir estar pelado naquela cama velha com aquela menina nova.

Outra coisa interessante também era o fato do corpo dessa segunda puta ser completamente diferente do da primeira. Era bem mais magra, seios pequenos, pele bem morena, enfim, um corpo de menina. Ah, e Jeremias descobriu também algo que confirmaria depois pelo resto da vida, que bocetas eram bem diferentes umas das outras, e isso não tinha nada a ver com aparência, mas sim com a sensação do seu pinto ao entrar nelas.

Jeremias não sabia direito quanto tempo ficou no quarto com essa segunda puta, mas, sem dúvida, demorou bem mais do que da outra vez. Ah, e ela também não contou o dinheiro que Jeremias lhe deu. Simplesmente guardou as notas nos peitos. Jeremias gostou daquilo, disse até logo e foi embora pelo mesmo corredor pelo qual tinha entrado, e que agora não parecia tão mal iluminado, mas talvez fosse só impressão.

Como o rito de passagem da molecada na época exigia não apenas a perda da virgindade, mas a confirmação da macheza com mais algumas idas à Boca, Jeremias voltou uma terceira vez àquele puteiro. O engraçado é que não se lembrava de praticamente nada desse trepada. Tinha apenas uma vaga idéia de que a puta era loura e um pouco mais velha do que a segunda, mas mais nova do que a primeira.

Devia haver um motivo para essa amnésia, pensava Jeremias enquanto se dirigia para o quarto daquele outro puteiro com uma puta negra, que seria responsável pela quarta trepada de sua vida, desta vez por incentivo de Carlos, Leonardo e Júlio, que o haviam praticamente arrastado até ali. O fato de estar naquele quarto com uma mulher negra, aliás uma mulher negra bonita, deixou Jeremias meio nervoso. E quando aquela puta mulher puta ficou nua, ele praticamente entrou em pânico. Ela então o chamou para a cama. Ele tirou a roupa e se deitou ao lado dela. Começou a passar a mão pela pele negra e macia da garota e, de repente, sentiu que tinha gozado.

ProstJeremias já não se lembrava da reação exata da garota, mas recordava que, como tudo aquilo tinha acontecido em menos de cinco minutos, eles ficaram no quarto, conversando, deitados e pelados, durante mais um tempo. Então, Jeremias, sabe-se lá por que, resolveu dizer a ela que gostaria de ser negro. A garota perguntou o motivo e ele afirmou que os negros eram mais sensíveis e inteligentes, quase todos os músicos que ele admirava eram negros, afinal. A garota, porém, disse que, se dependesse dela, teria nascido branca. “Por quê?, perguntou Jeremias. “Porque tudo é mais fácil pra branco”, respondeu ela.

Quando saíram do quarto, Carlos, Leonardo e Júlio já estavam esperando lá fora. “Caramba, demorou, hein? Deve ter sido muito bom”, afirmou Leonardo. Jeremias sorriu e ficou calado. Ainda bem que a garota negra também.

E foi isso, ou alguma coisa parecida com isso.

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Ainda tremia, porém bem menos, e as fisgadas na barriga tinham praticamente desaparecido.

Ele havia acabado de tomar banho e, em comparação ao verdadeiro inferno de antes, sentia-se até bem.

Percebeu que algumas pessoas estavam reunidas, sentadas no chão, tocando violão e cantando, no pátio que dava entrada para o refeitório, onde, dali a pouco, seria servido o jantar.

Jeremias se aproximou do grupo e sentou. Mais uma vez, constatou que, ao contrário do que previra, estava se sentindo bem melhor, na medida em que seu sangue começava a circular livre das toxinas habituais.

Até mesmo aquela fisgada de leve na sua face esquerda não chegava a ser um grande incômodo. O que começou a incomodar de verdade foi o fato de, ao tentar focar as pessoas que estavam ao redor, sentir que sua visão, de repente, começou a ficar turva e fragmentada.

Se não fosse totalmente impossível naquelas circunstâncias, Jeremias poderia jurar que estava viajando de ácido, aliás, um ácido bem forte, daqueles que ele tomava anos atrás, quando ainda se encontrava mercadoria de qualidade na cidade de onde vinha.

Bons tempos aqueles! Bons tempos?, questionava-se Jeremias, ao tentar levantar-se e perceber que não sentia as pernas. Estava tentando lidar com isso quando a leve fisgada na face esquerda, da qual já tinha se esquecido, voltou com muito mais intensidade e parecia agora que todo o seus rosto era repuxado para a frente e para trás, de um lado para o outro.

A visão já não turvava mais, isso porque tudo estava ficando cada vez mais escuro.

Então ouviu alguém gritar: “Traz rápido uma porra de uma colher da cozinha que o cara tá enrolando a língua”.

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Para Jeremias, tudo não passava de uma forte chuva combinada com uma atípica ressaca da maré. Mas Carlos não pensava assim. Para ele, a chuva e a conseqüente inundação daquele final de madrugada era uma espécie de “sinal do fim dos tempos”.

Foi com essa “visão bíblica” que Carlos acordou Jeremias naquela manhã, convidando-o a meter os pés na água suja que cobria todas as quatro ou três quadras que separavam o prédio onde morava da praia, cuja areia tinha “desaparecido” completamente.chuva2

Jeremias e Carlos caminharam durante toda a manhã pelos jardins inundados que separavam a avenida da praia. Ao poucos, a água foi regredindo. Tudo finalmente ficou seco. Parece que a água tinha voltado novamente para o mar.

No final daquela tarde, um grupo de pessoas se reuniu na praia, comentando o ocorrido. A tese da “grande onda”, aquela que varreria todo o litoral do país, destruindo tudo o que encontrasse pela frente, era a que tinha mais adeptos. O que acontecera naquela madrugada era apenas um aviso. Então alguns citavam os nomes de algumas pessoas que já estavam comprando terras no Planalto Central, o único lugar que, segundo as previsões, ficaria a salvo da grande onda.

Jeremias estava muito chapado para considerar a possibilidade concreta de se transformar numa testemunha do final dos tempos, pelo menos no final dos tempos da cidade onde vivia. Mesmo assim achou interessante a imagem da “grande onda” levando tudo para o ralo. E ficou brincando com ela na cabeça, enquanto voltavam para casa. Estava com fome e frio. “Foda-se a onda”, pensou ele.
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PARTE IX

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______________________________Capítulo XIV

“Tinha decidido não tentar mais entrar em contato, até porque achava que você desistiria logo de contar essa tal história que você acha tão importante contar. Mas como você já mandou uma quantidade razoável de fragmentos, que eu venho reescrevendo e editando da forma que me parece mais conveniente, preciso então que você me dê um retorno sobre o material no qual já mexi. Sinto-me navegando às cegas e sou obrigado a colocar as coisas do seguinte modo: ou você me dá um retorno ou eu paro por aqui, porque não há como prosseguir desse jeito. Estou anexando o material que, como eu disse, está editado na forma e na seqüência que me pareceram melhor”.

João enviou o e-mail para Jeremias e foi caminhar pela cidade, a cidade que também fazia parte da história que Jeremias estava tentando contar.

“E daí?”, perguntou-se João. “E daí, porra nenhuma!”, respondeu para si mesmo.

“Não, não, tem um ‘e daí’, sim”, prosseguiu João no seu diálogo de autista.

“E qual é o ‘e daí’, então?”.selo b

“O ‘e daí’ é que você enviou aquele e-mail já sabendo que Jeremias não vai dar absolutamente nenhum retorno a respeito do que você já escreveu. Você só mandou o e-mail porque, já sabendo disso, quer uma justificativa para não continuar ajudando Jeremias a contar a história que ele está te mandando, em ritmo de conta-gotas.”

Fazia sentido. Receber aqueles fragmentos de texto de Jeremias, que caíam com uma periodicidade aleatória na sua caixa postal, havia se transformado numa espécie de vício para João.

A única maneira que encontrara para controlar a ansiedade pela chegada dos “próximos capítulos” era reescrever e reescrever as coisas que já haviam chegado, a ponto de João agora já não saber mais direito se os textos ainda guardavam alguma relação coerente com os escritos originais ou se ele já havia reinventado tudo a partir das suas próprias idéias. Enquanto isso, por causa da demora na entrega da condensação dos textos encomendados, alguns clientes de João começavam a fazer ameaças, veladas, mas cada vez mais freqüentes, sobre a possibilidade de procurarem outras pessoas para desempenhar as tarefas que, percebiam, estavam sendo negligenciadas.

Isso fez com que João concluísse que era preciso, urgentemente, se organizar melhor – e, principalmente, ufa, se acalmar um pouco. Decidiu, então, que, dali em diante, mesmo que algum novo texto de Jeremias chegasse, ele não tocaria nele até ter terminado todas as encomendas de seus clientes.

Voltou para casa e sentou no computador decidido a trabalhar, séria e profissionalmente, até desmaiar de cansaço ou sono.

Mas, quando foi checar a sua caixa postal, havia uma mensagem recém-chegada:

“Eu continuo achando que você é o cara. Até porque você estava por perto quando aconteceu. Abraços, Jeremias.”


____________________________________Capítulo XV

Era normal, àquela hora da tarde, a neblina envolver os morros ao redor. Às vezes, o tempo não abria mais. Simplesmente anoitecia e pronto. Às vezes, o sol ainda dava sinal de vida, pouco antes de escurecer.

Jeremias estava sentado na porta da cozinha e se perguntava se, especificamente naquela tarde de maio, o sol ia ou não aparecer de novo, antes que anoitecesse.neblina

Jeremias não estava muito longe da cidade à beira mar. Na verdade, estava bem próximo, a apenas algumas dezenas de quilômetros serra acima. Ele, contudo, sentia-se, na maior parte do tempo, há mil anos-luz de tudo aquilo que vivera antes e que o havia conduzido até àquele lugar, rodeado de morros e onde saber se o sol ia ou não voltar a aparecer, depois da neblina que costumava envolver as tardes cada vez mais frias, era uma das indagações mais importantes que se tinha fazer por ali, dia após dia.

E Jeremias começa a gostar que fosse assim, pelo menos por enquanto.

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Por mais estranho que isso parecesse, Jeremias e Carlos nunca haviam ido até a Boca atrás de qualquer tipo de droga. Sempre arrumavam o que queriam através de rotas alternativas, e a cidade estava cheia delas na época. Aquela, porém, era uma emergência séria: há bastante tempo ninguém, absolutamente ninguém encontrava maconha nos lugares de costume, ou seja, na região vizinha à praia ou em bairros mais próximos, o que era uma grande novidade diante da habitual fartura que se revelava praticamente a cada esquina.

A situação estava tão séria que já havia gente fumando coisas bem estranhas, como incenso misturado com fumo de rolo, ban- chá , chá de artemísia e outras substâncias exóticas.  É lógico que o resultado disso eram grandes dores de cabeça e crises de vômito, embora houvesse pessoas que jurassem ficar ligadas.

Como não estavam acostumados a “negociar” por ali, já que ultimamente só freqüentavam a Boca por causa da recente obsessão pelos músicos que ainda resistiam tocando por lá, Jeremias e Carlos ficaram circulando de esquina em esquina sem estabelecer qualquer contato positivo. Mas logo descobriram que a “escassez” também havia atingido o “poor side of town”.

Isso ficou mais do que evidente quando um sujeito mais velho, dos seus 40 e poucos anos, se aproximou deles e perguntou se, “por acaso”, estavam procurando maconha. Diante da resposta óbvia, o sujeito disse que não tinha nada ali com ele, mas que sabia onde encontrar uma “boa quantidade”. Precisava de um carro para ir buscar a coisa. Se eles lhe dessem uma carona até o tal lugar, que ficava na cidade vizinha, ele lhes cederia, quer dizer, venderia uma “cara legal, a preço de custo”.revolver

Havia algo meio suicida nas coisas que Jeremias e Carlos às vezes faziam, e aquela era certamente uma delas: se meter num carro com um sujeito desconhecido, com cara de bandidão, pra ir buscar maconha sabe-se lá aonde. Contudo, o tal instinto suicida, aliado a um certo prazer idiota pelo risco não calculado, fez com que aceitassem a proposta. Pra deixar a coisa um pouco mais, digamos, “emocionante”, o tal sujeito chamou um cara bem mais novo, quase um moleque, pra ir junto. Foi justamente esse moleque o motivo da preocupação de Jeremias assim que entrou com ele no banco de trás do carro, enquanto o tiozão se sentava na frente ao lado de Carlos, que estava ao volante.

O tiozão também parecia preocupado com o moleque, que levou um esporro logo que o carro começou a andar, por estar começando a enrolar um baseado bem ao lado de um carro de polícia estacionado no sinaleiro fechado em que também foram obrigados a parar. “Enrola essa porra quando a gente entrar na estrada, caralho!”, disse entre os dentes o tiozão. Foi exatamente o que o garoto fez assim que pegaram a pista rumo à cidade vizinha.

Jeremias procurou se acalmar um pouco. Afinal, na pior das hipóteses, depois de tanto tempo, iria fumar um fumo que não parecesse capim fedido. Essa inesperada onda de bom humor logo se dissipou, no entanto, quando o moleque lhe passou o baseado e ele sentiu o mesmo gosto de capim na boca. A única diferença é que este não era fedido, mas perfumado, o que não melhorava nem um pouco as coisas, já que pressentia uma dor de cabeça daquelas chegando em breve.

Se aqueles caras da Boca estavam fumando aquela merda, a situação estava mesmo crítica, pensou Jeremias, quando percebeu que Carlos reduziu a velocidade do carro ao divisar uma viatura da Polícia Rodoviária trafegando na pista um pouco mais à frente. Passaram pela viatura com a inocência de colegiais saindo de férias no carro do papai, ou pelo menos foi essa a imagem que Jeremias tentou manter na cabeça enquanto, lentamente, ultrapassavam a viatura.38revolver

“Olha aí, tenho que falar pra vocês porque não sou de ficar escondendo o jogo. Eu tô aqui coberto. Tava com a mão nele e ia puxar se os caras parassem a gente”. Com a camisa levantada, o tiozão mostrava a coronha de um revólver prateado que saía da sua cintura. Jeremias não sabia o que Carlos, ao volante, estava pensando naquele momento, mas, se tivesse de apostar, apostaria que ele estava pensando o mesmo que ele: “Ainda bem que não pararam a gente!”. Olhou para o garoto ao seu lado e ele também parecia estar tendo o mesmo pensamento.

“Vocês já ouviram falar do Miro, aquele jogador?”, emendou o tiozão. É claro que já tinham ouvido falar do Miro, um jogador que havia se tornado até meio famoso, quando jogava no time da cidade, pouco antes desse time entrar em sua fase áurea e se tornar mundialmente conhecido. “Pois é”, prosseguiu o tiozão, “o Miro se fodeu. Quando chegou a boa, ele já tava todo fodido, joelho estourado, muita cana na cuca, sabe como é. Não deu pra ele aproveitar a boa. Espirrou feio. É no bar dele que nós estamos indo  buscar a coisa.”

De repente, um flash em sua cabeça levou Jeremias de volta ao campo do time da cidade. Era de noite, os refletores estavam acessos, a grama parecia muito mais verde do que de costume. Jeremias e seu pai estavam bem junto ao alambrado e seu pai, apontando para um jogador que se encontrava bem próximo deles, pisando a grama muito verde do campo, disse: “Esse aí é o Miro, um leão. Não é de enfeitar muito. Não brinca em serviço, Joga pro time, não pra torcida.”

“Acho melhor vocês esperarem no carro”, ordenou o tiozão, quando Carlos, obedecendo às suas orientações, estacionou na frente de um boteco numa rua de terra, margeada por valas e mato alto. “Você também fica, caralho”, disse o tiozão ao garoto, que já havia descido e se preparava para acompanhá-lo ao bar mal iluminado do outro lado da rua. Jeremias, Carlos e o garoto ficaram ali, dentro do carro, esperando. “Porra, o Miro”, pensava Jeremias, enquanto os minutos pareciam demorar uma eternidade para passar.141793

Aliás, foram mesmo apenas alguns minutos que se passaram até o tiozão surgir de novo na porta do bar. Não parecia com pressa de chegar ao carro. O garoto logo sacou a situação: “Melou”. A viagem havia sido inútil. “Nem o Miro tem bosta nenhuma. Olha aí, pra vocês não ficarem segurando a brocha”, afirmou o tiozão, estendendo uma pequena porção de erva para o Carlos, uma porção mirrada do mesmo capim cheiroso que haviam fumado na vinda. Jeremias e Carlos agradeceram, trouxeram a dupla de volta à Boca e o tiozão, quando se despediu, disse: “Bom, de qualquer forma, valeu. Não consigo entender por que tá rolando essa escassez aí. Eu podia jurar que pelo menos o Miro tinha algum coisa. É, tá foda mesmo”.

Ainda levou algum tempo pra escassez na cidade acabar e nunca ninguém soube o que a motivou.

“Porra, o Miro!”

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As coisas com Judite sempre foram complicadas. As trepadas, contudo, eram quase sempre ótimas. Agora Jeremias compreendia que as trepadas eram quase sempre ótimas porque Judite, naquela época, era a mulher que ele conhecia que melhor trepava. E por uma razão bem simples: era a mulher que ele conhecia que mais gostava de trepar, embora todas as outras achassem que trepavam melhor e gostavam mais de trepar do que Judite.

Ao mesmo tempo, as coisas eram sempre complicadas com Judite por outra razão também muito simples: Judite era apaixonada por Jeremias e Jeremias não só não era apaixonada por Judite como também, naquela época, não percebia que Judite era a mulher que melhor trepava porque era a mulher que mais gostava de trepar. Talvez, se tivesse percebido isso, então, as coisas com Judite poderiam ser menos complicadas, ou talvez, quem sabe, ele tivesse até se apaixonado um pouquinho por ela, ou pelo menos dado mais importância às trepadas que dava com ela.S_Mulher_n

Esses pensamentos borbulhavam na cabeça de Jeremias naquele momento, sentado na cama, em seu quarto, ao acordar no meio da noite, após um sonho que trouxera à sua mente lembranças da última trepada que tinha dado com Judite, muitos anos atrás.

Até hoje, Jeremias tinha a sensação de que ele e Judite, daquela vez, haviam participado de uma longa orgia envolvendo várias pessoas, embora tivesse certeza de que apenas os dois estavam trancados naquele quarto.  Aquela noite ficara semi-apagada durante anos na mente de Jeremias, certamente devido também à dolorosa ressaca que se seguiu quando o dia amanheceu.

Agora, ali no seu quarto, no meio da noite interrompida por aquele sonho, Jeremias já não sentia, obviamente, nenhum dos efeitos daquela terrível ressaca perdida no tempo e no espaço. Por isso, a lembrança de Judite fez com que ele se masturbasse violentamente e voltasse a dormir.

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Jeremias não sabia direito como essas coisas começavam, mas sabia exatamente como elas terminavam: numa grande confusão. Era exatamente isso o que ele estava pensando enquanto observava Júlio trepando com aquela mulher já na casa dos 40, mãe de filhos adolescentes e esposa de um famoso cirurgião dentista da cidade. Tudo tinha começado porque ela, num período de crise no casamento, provocado principalmente por uma recente traição do marido, havia decidido “recuperar o tempo perdido”, tornando-se assídua freqüentadora da única casa noturna que apresentava regularmente shows de rock na cidade, até mesmo em dias de semana.

Foi num desses shows, numa quarta-feira qualquer, que Jeremias e Júlio, entediados com a banda meia-boca que se apresentava naquela noite, resolveram dar o fora mais cedo. Na porta, ao se dirigirem para o carro de Júlio, uma mulher, visivelmente bêbada, se aproximou e perguntou se eles lhe dariam uma carona. Júlio olhou para Jeremias e mandou que ela entrasse no carro. Naquele momento, eles realmente pensavam em deixar a mulher onde ela quisesse, para em seguida resolverem o que fazer – ou não fazer – naquele fim de noite idiota daquela quarta-feira idiota.

“E aí, você vão fazer o quê?”, perguntou a mulher.

“Nada. Vamos levar você. Aonde você quer ir?, respondeu perguntando Júlio.

“Ah, não sei. Eu vou aonde vocês forem”, continuou a mulher.

“Mas nós não vamos a lugar nenhum”, retrucou Jeremias.

“Ah, então eu também vou. Olha, eu tenho um pouco de coca aqui. Vocês querem cheirar comigo?”, ofereceu a mulher.

Primeiro, sem quase respirar entre os seguidos goles de uísque que ela trazia dentro de uma garrafinha de metal envolvida em couro, ela contou a “história da sua vida”, resumida no fato de ter 46 anos, estar casada há 22 com o tal cirurgião dentista, ter quatro filhos e estar puta da vida com a traição do marido “filho da puta que trepa com uma menininha que tem quase a idade da nossa filha mais velha”.

Dito isso, ela aspirou a última carreira e perguntou se Jeremias e Júlio não gostariam de trepar com ela. Antes que qualquer dos dois pudesse esboçar qualquer reação, a mulher, revelando uma surpreendente habilidade e desembaraço para a esposa de um cirurgião dentista mãe de quatro filhos, agarrou, com cada uma das mãos, os respectivos pintos de Jeremias e Júlio, por cima das respectivas calças. Em breve, os três estavam nus e fazendo o que seria de se esperar de três pessoas nuas naquele estado.

Alguns meses depois, Jeremias viu a mulher daquela noite comprando frutas com o marido cirurgião dentista famoso numa feira de sábado. Ao que parece, a crise conjugal tinha sido contornada. Jeremias ficou se perguntando o que aquela noite com ele e Júlio tinha significado na vida daquela mulher, contribuindo ou não para que o casal superasse a sua pane matrimonial.

Então Jeremias se lembrou que houve um determinado período, naquela época em, que várias mulheres “maduras” e, na maior parte das vezes, “bem casadas” parecem ter enlouquecido. Talvez fosse alguma coisa no ar, pensou ele.

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PARTE X

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______________________________________Capítulo XVI

Sentir aquilo era comum, mas nem por isso menos desconfortável. Imaginou se não seria aquela sensação semelhante à experimentada pelo último dos moicanos. Mas que diabos, ele não sabia nada sobre o último dos moicanos e, portanto, não tinha a mínima idéia de como o último dos moicanos se sentiu.

Mesmo assim, caminhando junto à amurada onde o mar lenta e suavemente batia, ele se sentia como o último dos moicanos, já que, por uma série de motivos e acontecimentos, apenas ele havia restado ali. Todos os outros, de uma maneira ou de outra, tinham sumido. O engraçado é que ele não tinha o mínimo sentimento de nostalgia ou rancor em relação à sua solitária condição de último guerreiro da tribo. Apenas uma necessidade básica: dar algum sentido àquilo tudo. Para quê? Ele não sabia, mas sentia que precisava fazer aquilo urgentemente, antes que…

Antes que…?

Uma onda um pouco mais forte bateu na amurada e respingou água salgada na sua cara.

Percebeu então que um grande cargueiro estava deixando a barra, rumo ao mar aberto. O sol estava forte, o céu estava azul, mas a superfície do mar estava cheia de detritos das mais variadas espécies, que boiavam ao sabor das marolas provocadas pelo cargueiro em movimento.navio

Antes que…?

A médica japonesa que o atendeu no pronto-socorro explicou que a tontura que sentiu pela manhã devia ser conseqüência de uma repentina queda de pressão. João, no entanto, embora não descartasse a pressão baixa, achava que aquilo tinha bem mais a ver com o fato de, durante toda a madrugada, ter ficado mexendo nos últimos textos que Jeremias havia lhe enviado.

Jeremias sempre lhe mandara mensagens que continham fragmentos de textos que, por menores que fossem, “fechavam” uma determinada situação, ou seja, era possível extrair dali uma pequena história, com começo, meio e fim, mesmo que, com freqüência, ele fosse obrigado a decidir de que forma e quando isso ocorria.

Agora, porém, Jeremias tinha mandado, ao longo de uma semana, cerca de 50 mensagens com fragmentos de textos anexados, sendo que vários desses fragmentos se referiam a determinados episódios que Jeremias contava, mas caiam em ordem aleatória na caixa postal. Ou seja, como num quebra-cabeça, foi preciso ir encaixando os fragmentos dos textos que chegavam aos contextos das histórias aos quais eles pareciam pertencer.

João não fazia a mínima idéia por que Jeremias havia feito tal coisa e, quando os primeiros e-mails começaram a chegar, chegou a pensar que o sujeito tivesse surtado de vez. No entanto, ao analisar melhor as mensagens, acabou percebendo que alguns fragmentos de textos, apesar da seqüência caótica de sua chegada, tinham relação com outros fragmentos que haviam chegado antes.

Embora tudo aquilo lhe parecesse um grande absurdo, ficou de certa forma enfeitiçado pelo desafio de juntar as peças daquele quebra-cabeça estúpido que Jeremias havia armado. Parou de tentar descobrir o motivo pelo qual Jeremias tinha feito tal coisa – se é que havia algum motivo naquilo – e, depois de um dia inteiro sem que qualquer nova mensagem houvesse chegado, um provável sinal de que a enxurrada havia terminado, João varou aquela madrugada colando pedacinhos de textos em pedacinhos de textos. selo b

Quando deu por si, o dia já estava amanhecendo. Resolveu então fazer um café forte, pois sabia que seria inútil tentar dormir naquele estado de excitação que se seguiu ao fato de, aparentemente, ter conseguido decifrar o enigma antes que a esfinge o devorasse.

Foi quando colocava a segunda colher de pó de café no coador que sua cabeça começou a girar, como se estivesse em alto-mar.

“Não há motivo para preocupação. Isso não deve acontecer de novo”, afirmou a médica japonesa, encerrando a rápida consulta de emergência.

João decidiu não retornar direto para a casa. Sabia que, se fizesse isso, provavelmente acabaria voltando a mexer novamente nos textos de Jeremias, e não queria se arriscar a ficar tonto mais uma vez. Resolveu então caminhar um pouco.

Era algo sobre o Airplane, quer dizer, o Jefferson Airplane, aquela banda californiana com base em São Francisco, que alguns consideram como a inventora do acid-rock, talvez porque todos os seus integrantes, ao que consta, tomassem muito ácido.

Mas, afinal, o que mais eles poderiam fazer, vivendo em São Francisco em pleno “verão do amor”? Tomar ácido, naquela época e naquele lugar, devia ser tão comum – e inevitável – quanto tomar um café com pão com manteiga na padaria da esquina, pelo menos, é lógico, para uma considerável parcela da população da São Francisco daqueles dias.

Mas era e não era sobre isso que João estava pensando, enquanto caminhava pela rua ouvindo uma coletânea do Jefferson Airplane no mp3 que carregava grudado ao corpo. Na verdade, ele estava pensando em bem mais coisas do que no fato de muito ácido e outras drogas terem sido consumidos naquele época.JeffersonAirplane1

As drogas, em especial as psicodélicas, eram apenas um ingrediente naquele imenso caldeirão. E, afinal, o que havia sobrado daquele caldeirão?

Alguma coisa devia ter sobrado e ele gostaria de saber o quê. Descobrir aquilo parecia ser da máxima importância para a sua sobrevivência.

Mas, de qualquer forma, quem conhecia hoje o Jefferson Airplane naquela cidade? Com certeza, muito pouca gente. E depois, quando ele chegasse em casa, provavelmente já teria esquecido aquele negócio todo e nunca mais conseguiria colocar aquilo no papel, como a princípio pretendia, até para tentar compreender o motivo daquela preocupação toda com coisas que haviam acontecido há décadas num lugar tão distante.

A questão é que o dinheiro estava acabando e ele precisava dar um jeito, qualquer jeito. Aliás, isso se tornou evidente quando ele, afinal, chegou em casa e descobriu que o telefone estava mudo.

“Porra, o telefone, a merda do telefone”,  pensou em voz alta, recolocando o fone no gancho.

Concluiu, contudo, que a situação iria ficar bem pior dali a alguns dias, quando certamente a luz também seria cortada.

Como não havia nada que ele pudesse fazer no momento para mudar esse triste destino, foi para o computador e ligou o aparelho. Era algo que ainda podia se dar ao luxo de fazer, enquanto houvesse energia circulando pelos fios dentro das paredes da casa.

“Ficar solitário, pensou ele, é o tipo de jogo no qual não se pode fingir ou blefar, é preciso ser algo real, tão real que dói.”

Isso estava escrito num livro de David Goodis, Sexta-Feira Negra. Mas, como acontecia com o Jefferson Airplane, muito pouca gente devia conhecer David Goodis naquela cidade. E que importância isso realmente tinha diante do fato de agora ele estar sem telefone e prestes a ficar sem luz?1878697_4

De qualquer forma, havia escrito aquela frase na tela do computador, –Ficar solitário, pensou ele, é o tipo de jogo no qual não se pode fingir ou blefar, é preciso ser algo real, tão real que dói. -, compreendendo que era exatamente aquilo que precisava fazer naquele momento, isto é, encarar sua própria solidão para que dali, daquele refúgio desolado, pudesse enxergar com um pouco mais de clareza onde estava e qual o rumo a seguir.

A questão é que, como o tal Goodis advertia, não era possível fingir ou blefar. Ou, como o escritor alertava um pouco mais adiante, era “você dando as cartas para você mesmo”. E isso doía, ah como doía. E ele sabia bem disso ali, em frente à tela do computador, agora sem telefone e às vésperas de ficar no escuro.

Então, algo dentro dele, lhe mandou uma espécie de aviso: “Você está tentando, mais uma vez, controlar tudo. E você sabe que isso é uma tremenda besteira.”

Bem, ele até concordava com isso. Estava, mais uma vez, tentando assumir o controle do rumo das coisas, como se isso tivesse dado certo em alguma ocasião antes. Aliás, como se controlar o rumo das coisas fosse de alguma maneira possível em qualquer ocasião.

Ok, ok, ok, era insanidade dele, a velha insanidade, mas, ao mesmo tempo, não podia simplesmente ficar parado, esperando que as coisas acontecessem.

Nunca tivera a mínima vocação para práticas orientais – nem ocidentais – de meditação, embora, durante considerável período de sua vida, houvesse tentado atingir algum tipo de estado mental transcendental que lhe permitisse suportar um pouco melhor aquela angústia crônica que sentia bem no meio do peito ou, para ser mais exato, entre o final da garganta e o lugar onde imaginava que seu estômago começava.

Ok, ok, ok, soltar as rédeas, deixar as coisas acontecerem, não apressar o rio, afinal eles não dizem que o rio corre sozinho?

Então, relaxar, relaxar, relaxar…

Não se preocupar nem mesmo com o fato da tela do computador ter, de repente, ficado totalmente escura, já que, ao contrário de suas previsões, os caras da companhia de energia haviam decidido cortar a sua luz exatamente naquele momento…
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PARTE XI


Copo

______________________________Capítulo XVII

Jeremias ainda se sentia bem fraco, mas os tremores e as convulsões, resultado da abstinência, como lhe explicaram, haviam cessado, o que, para ele, era algo meio milagroso, já que tinha certeza de que aquelas crises eram prenúncio certo de sua morte iminente. A situação não era nova. Embora aquele lugar fosse um pouco diferente dos anteriores, já tinha passado por situações como aquelas várias vezes antes.

Aliás, voltar a situações como aquela havia se transformado mesmo numa espécie de rotina nos últimos anos. E era exatamente essa rotina que Jeremias já não suportava mais. Precisava escapar daquilo tudo. Primeiro, escapar daquele lugar, depois escapar de todos os lugares como aquele. Precisava de um plano que não falhasse, como acontecera com todos os planos que havia traçado até ali. Ele pensava nisso, deitado na sua cama, quando o sino tocou, indicando que todos deviam se levantar e, em 20 minutos, se apresentar no refeitório, para tomar o café da manhã.

O problema é que, a cada dia, ficava mais claro para Jeremias que escapar dali não era o problema. Isso seria até bem fácil, devido à sua longa experiência em manipular todos ao redor em locais como aquele. A questão crucial dessa vez é que ele não conseguia imaginar um só lugar para onde pudesse ir, saindo dali. Todas as opções haviam sido irremediavelmente queimadas. Diga-se de passagem, foi exatamente esse quadro sem saída que o levou àquele inusitado lugar, com certeza o mais bizarro de todos os que tinha freqüentado até o momento. Se existisse qualquer outra chance, Jeremias jamais teria aceitado ser enterrado ali.

Foi a constatação dessa triste realidade que fez com que Jeremias decidisse – se é que aquilo podia ser chamado de decisão – deixar que as coisas seguissem seu rumo por algum tempo, enquanto ele simplesmente permaneceria se equilibrando na margem do rio, atento à ocorrência de enxurradas que ameaçassem afogá-lo no mar bravio do qual, momentaneamente, ele estava a salvo.

&&&&&&&&&&

Falar de bocetas tinha vários problemas implícitos. O primeiro deles era uma questão de grafia. O correto seria grafar bocetas com O, de acordo com os dicionários. Ocorre que ninguém, quando falava, dizia boceta, mas sim buceta, aliás com o U bem pronunciado. Ele, contudo, optou pela grafia com O, pois achava “ mais elegante”. Lembrou-se então que Henry Miller, em um de seus livros, contava que conheceu uma mulher chamada Geórgia, que, de tão sensual, parecia ser, ela toda, uma boceta – ou buceta, não importa. O que importa é que, sempre que ele via uma mulher muito sensual, pensava: “Olha aí uma Geórgia”. 00002092-constrain-240x300

Lembrou-se também de um marceneiro espanhol, que conhecera através de Júlio, e que, com seus quase 70 anos nas costas, sempre repetia uma declaração poética-filosófica a respeito do assunto: “Uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta”. Jeremias e Júlio nunca perguntaram ao velho marceneiro, que  volta e meia encontravam tomando cachaça num boteco perto do centro da cidade, o que ele queria exatamente dizer com “uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta”. Eles simplesmente riam quando o espanhol enunciava a frase, como se soubessem exatamente do que ele estava falando. E como o marceneiro vivia repetindo isso, Jeremias e Júlio viviam dando risada e fingindo que sabiam o significado do que o velho queria dizer com aquilo.

Aliás, “uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta” foi o que Jeremias disse quando Carlos lhe mostrou um quadro que havia acabado de pintar: uma grande boceta ocupando a tela de lado a lado. O quadro, segundo Carlos, seria batizado de “Geórgia”, obviamente uma homenagem a Henry Miller, do qual andavam lendo vários livros na época. O problema foi quando Carlos perguntou a Jeremias:

“O que você quer dizer com ‘uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta’? É claro que eu sei que é uma boceta, eu pintei uma boceta, então é uma boceta, tanto que dei o nome de ‘Geórgia’, nome das bocetas que Henry Miller comeu. Aí você olha pra porra do quadro e diz: ‘uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta’. Que porra é essa?”

“Você conhece o Espanhol?”

“Que Espanhol?”

“Ah, eu não sei o nome dele. É um marceneiro, já coroa, que tá sempre bebendo cachaça com o Júlio lá naquele boteco onde a gente de vez em quando vai.”erótica 1

“Não faço a mínima idéia.”

“Bom, não importa. É ele que diz.”

“Que diz o quê?”

“Que ‘uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta’.”

“E o que quer dizer isso?”

“Sei lá, acho que quer dizer isso, que ‘uma boceta é uma boceta, é uma boceta, é uma boceta’.”

“Mas o que isso tem a ver com o meu quadro?”

“Porra, você não pintou uma boceta?”henry_miller_372x495

“Pintei.”

“Então, quando eu vi o quadro eu me lembrei do Espanhol.”

“Mas afinal você gostou ou não da merda do quadro?”

“É lógico que eu gostei, tanto que eu lembrei do Espanhol. O Espanhol deve continuar adorando bocetas, apesar da idade dele.”

“Valeu então.”

“Valeu.”erótica 2

Jeremias também adorava bocetas, mas não entendia por que, ultimamente, as mulheres tinham entrado numas de raspar os pelos das respectivas bocetas. Quando elas não apareciam totalmente carecas, como na grande maioria dos sites e filmes pornôs atuais, sobrava apenas uma tirinha ridícula de pelos. Às vezes Jeremias achava que aquela moda tinha a ver com os reduzidos biquínis que as mulheres começaram a usar nas praias. Bem, ele até concordava que uma mulher, caminhando na praia, com os pentelhos aparecendo pelos lados do biquíni ia deixar todo mundo tarado na areia. Mas aí é que estava o ponto. Jeremias achava que os pelos circundando uma boceta eram um das coisas mais bonitas e excitantes do mundo.

Ao mesmo tempo, alguém havia comentado, em algum lugar, que a mania atual das mulheres rasparem totalmente as bocetas tinha a ver com pedofilia. Segundo a tal teoria, os homens passaram a gostar de ver as mulheres de bocetas carecas porque parecia que elas tinha bocetinhas de menininhas imberbes, e isso, teoricamente, dava mais tesão. Já um cara que mexia com cinema de propaganda, era viciado em filmes pornográficos e, sabe-se lá por que todo mundo chamava de Lagarto, disse um dia para Jeremias que as bocetas carecas tinham a ver apenas com “estética cinematográfica”. Nos pornôs, conforme o Lagarto, os diretores dos filmes exigiam que as atrizes e os atores raspassem todos os pelos, para “não atrapalhar os closes da câmera”.

Seja como for, Jeremias continuava preferindo bocetas peludas.

__________________________Capítulo XVIII

Após dois dias sem luz, João finalmente conseguiu arrumar algum dinheiro para solicitar à empresa de eletricidade que fosse feita a religação, o que só aconteceu um dia e meio depois. Quando, por fim, conseguiu ligar novamente o computador, encontrou novos textos de Jeremias em sua caixa postal

Afinal, que sentido havia naquela dissertação sobre bocetas, assunto do último e-mail de Jeremias?  Que lugar aquilo poderia ocupar no enredo da história que Jeremias insistia em querer contar? selo a

A fragmentação dos textos, o freqüente descompasso temporal das situações que descrevia, as charadinhas idiotas, tudo isso já tinha virado rotina, quer dizer, João já tinha se conformado com o fato de que, se ia continuar metido naquilo, quem determinava o ritmo era Jeremias, e não ele. Mas aquela história de bocetas…Tudo bem, ele também adorava bocetas, mas e daí?

“E sobre o que é essa história?”

“É difícil explicar.”

“Mas você não tem nem uma vaga idéia do enredo da história?”

“É que tudo ainda está muito fragmentado. Ele muda de assunto de repente, depois retoma um outro assunto que tinha abordado vários e-mails antes. Além disso, vive introduzindo situações novas. É tudo muito caótico.”

“Bem, na verdade, saber do que trata a história que esse tal de Jeremias está querendo contar não tem a mínima importância. O importante aqui para nós é saber como é que você está se sentindo em relação a isso tudo.”

“Eu estou me sentindo perdido, angustiado, mas ao mesmo tempo excitado. Vou da depressão à euforia em fração de segundos. Será que eu sou um daqueles sujeitos com distúrbio bipolar. Afinal, muita gente hoje em dia tem esse negócio aí. Vai ver que eu tenho também.”

“Distúrbio bipolar não está em questão no momento. O que eu estou perguntando é como você vem se sentindo a respeito dessa coisa de seu amigo, que você não via nem tinha notícias há tantos anos, ter reaparecido do nada, através do seu correio eletrônico, dizendo que você precisava escrever uma história que ele queria contar.”DSC00038

“Eu já disse.”

“Disse o quê?”

“Como eu estou me sentindo. Eu acho que estou pirando. Eu não consigo pensar em mais nada a não ser nessa tal história, aonde ela vai levar, o que significa, quando vai chegar o próximo e-mail do Jeremias, será que o e-mail vai se referir a mais um trecho de algo que já abordou antes ou ele vai começar um novo assunto, será que estou organizando direito a ordem dos textos que ele já me encaminhou ou já mexi e remexi tanto naquilo tudo que a história que estou escrevendo já não é mais a história de Jeremias, mas uma história que eu mesmo estou inventando.”

“João, no telefone, quando você me implorou para eu atendê-lo ainda hoje, você me disse que andava tão obcecado com esse negócio de história que não estava conseguindo fazer mais nada. Explique melhor isso, por favor.”

“É o seguinte, faz quase um mês que eu não consigo trabalhar nos textos que eu já devia ter entregue às pessoas que me contrataram. Para alguns dos meus clientes, eu disse que havia ficado doente, mas já estava melhor e logo terminaria o serviço solicitado. Então eles me deram novos prazos.  Outros, porém, tinham urgência da coisa e simplesmente cancelaram os pedidos e foram procurar outras pessoas para fazer o que eu devia ter feito e não fiz.”

“Você percebe como essa história toda está afetando a sua vida?”

“De que história você está falando, da história do Jeremias ou da minha história?”

“De como a história do seu amigo Jeremias está afetando a sua história, a sua vida. Nem trabalhar você está conseguindo trabalhar. Isso está ficando grave. A minha sugestão, como seu terapeuta, é que você esqueça tudo, delete todos os e-mails do Jeremias que chegarem, finja que esse tal de Jeremias jamais manteve contato de novo, faça de conta que ele morreu e que toda essa coisa de contar história, escrever a história, tudo isso não passou de um surto, um pesadelo que precisa ser esquecido.”

“Não é fácil.”

“O que não é fácil?”

“Fingir que Jeremias já morreu e que a história que ele quer contar nunca existiu.”

“Essa história pelo menos tem alguma coisa que seja interessante?”

“Tem”.

“O que, por exemplo?”

“Bocetas”.

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PARTE XII

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_________________________________Capítulo XIX

Aconteceu um dia, quando Jeremias limpava as gaiolas das chinchilas. Percebeu, de repente, que tinha de assumir totalmente o que ele era – ou pelo menos assumir totalmente o que ele sentia ser -, justamente para tentar descobrir, talvez pela primeira vez desde que começou a respirar em cima do planeta, quem ele realmente era. Afinal, àquela altura, definitivamente não conhecia aquele sujeito que via toda a manhã no espelho do banheiro, quando acordava naquele lugar.

O primeiro passo nesse sentido era assumir integralmente o seu corpo, isto é, sentir o seu corpo, sentir seus ombros encurvados sem fazer qualquer tentativa para endireitá-los, sentir sua cabeça latejando no ritmo da pulsação do seu sangue dentro das suas veias, sentir seus pulmões se esforçando para captar o máximo de ar possível dentro dos limites mínimos permitidos pela absurda quantidade de cigarros consumidos durante décadas, enfim, sentir, sentir e sentir, por mais angustiante, frustrante e dolorido que isso fosse.

Não tinha a mínima idéia do que aquela súbita necessidade de autoconhecimento, surgida do nada e impregnada pelo cheiro forte do cocô das chinchilas, significava. Mas era melhor do que nada. Sentir-se ao máximo pelo máximo de tempo. Talvez fosse, enfim, uma maneira de fazer alguma coisa diferente e não enlouquecer enquanto estivesse ali.caminholavrinhas

Como, durante todo o dia, os internos tinham uma extensa programação a cumprir, Jeremias decidiu que iria concentrar seus exercícios de autoconhecimento sensitivo, ou seja lá o que fosse aquilo, no período em que cuidava dos animais da fazenda, tarefa que sempre fazia sozinho, a não ser, é óbvio, pela presença dos bichos.

&&&&&&&&&&&&&&&

Naquele verão, todos, de repente, perceberam que eram artistas. Alguns tocavam violão, outros cantavam, outros pintavam, outros começaram a escrever livros, outros descobriram uma súbita habilidade para fazer artesanato…

Para Jeremias, Carlos e Júlio, a coisa começou quando, todas as noites, passaram a se reunir para ouvir a coleção de discos de vinil que Júlio acumulara desde a adolescência.  Acompanhados por intermináveis baseados, eles quase sempre varavam as madrugadas e o toca-discos só era desligado pouco antes do amanhecer.

Os três só falavam de música, comiam música, dormiam música, trepavam música, cagavam música. Em pouco tempo, todas as pessoas do grupo também foram contaminadas. Jeremias não se lembrava de quem foi o primeiro, mas alguém compôs uma música e logo depois todos estavam compondo suas músicas, sozinhos ou em parceria com os outros. Com harmonias primárias, as canções falavam, em geral, das várias facetas do delírio calmo que caracterizava aqueles dias quentes e compridos.

Um dia Carlos entrou na casa de Jeremias e, violão em punho, mostrou como, ouvindo um disco ao vivo de Richie Havens, havia descoberto como afinar o violão em mi aberto, ou cebolão, como aquele tipo de afinação era então também conhecida. Jeremias, que tentava aprender as primeiras posições em seu recém-comprado violão, adorou a nova forma de tocar e, no dia seguinte, quando foi até a casa de Carlos, mostrou as três canções que havia composto durante a madrugada passada.200710160206153

Cris e Mô também entraram numas de compor e já tinham várias canções falando sobre “coisas de mulher”. Júlio, que era o único que ainda não havia composto nada, desencantou quando, numa uma rápida viagem aos Estados Unidos, onde foi comprar roupas indianas para revenda (um bom negócio na época), trouxe de lá uma Fender, “a guitarra do Hendrix”.

Alex apareceu mais ou menos por essa época, cabelos encaracolados, óculos redondos, sorriso fácil. Quando Alex pegou num violão, todos os outros perceberam o que era realmente tocar. Ele tinha o tal do dom, mas seria também a primeira baixa sofrida pelo grupo.

Foi ele que sugeriu que aquelas pessoas formassem uma banda. Foi ele também que encontrou um local, nos altos de um armazém caindo aos pedaços, no centro da cidade, para que a “banda” começasse a ensaiar.  Foi ele também que um dia se trancou nesse lugar e ficou dedilhando sua guitarra velha até que seus dados sangrassem, e só saiu de lá porque Júlio arrombou a porta, arrancou a velha guitarra de suas mãos e o mandou embora.

Depois disso, Alex falava cada vez menos e, sempre que podia, se isolava do resto do pessoal, abraçado ao seu violão, que ficava dedilhando compulsivamente por horas, até que alguém, novamente, o obrigasse, geralmente à força, a se separar do instrumento. king, kaki

Numa quinta-feira nublada, chegou a notícia. A família de Alex o tinha internado numa clínica psiquiátrica. Nunca mais ninguém teve notícias dele durante aquele e vários outros verões depois.

Nina foi a segunda a pirar. A princípio, ninguém notou nada de diferente. Nina sempre falou muito e sempre gostou de anfetaminas. Portanto, o fato de ela estar falando muito não era algo que chamasse a atenção de ninguém. Só que, aos poucos, as pessoas começaram a perceber que Nina não parava de falar nunca. E ninguém conseguia mais interrompê-la, já que sempre arrumava um jeito de retomar o assunto sobre o qual estava discorrendo e o emendava com outro, outro e outro, e tudo se transformava num monólogo sem fim.

Mas o que realmente preocupou as pessoas foi o surgimento daquelas manchas roxas em várias partes de seu corpo. A princípio, como Nina andava pra cima e pra baixo com um gringo que ninguém conhecia direito, cogitou-se a hipótese do cara estar batendo nela, talvez até com seu consentimento – quem sabe eles curtissem uma de sadomasoquismo ou coisas do tipo.

Um dia, porém, Jon, o gringo que andava com ela, procurou Jeremias e Carlos pra se queixar que não sabia mais o que fazer com Nina. Ela só falava, falava e falava, e agora tinha entrado numas de que ele precisava levá-la para a Bélgica, para apresentá-la aos pais dele. Jon não pensava em voltar para a Bélgica, com ou sem Nina, mas cada vez que ele tentava explicar isso a ela, Nina começava a chorar convulsivamente e dizia que ia se matar.

Jeremias e Carlos perceberam que Jon estava mesmo assustado e, para tranqüilizá-lo, disseram que iriam conversar com Nina.

“Legal, mas como é que a gente vai conversar com ela, se ela não ouve ninguém, só fala?”, perguntou Carlos, logo que o gringo foi embora.king, kaki

“Sei lá, só que a gente precisa dar um jeito. O problema não é só com o gringo, não. Ela tá deixando todo mundo maluco, já reparou?”, disse Jeremias.

“Tá, velho, tá mesmo. Eu pelo menos fico piradinho. E as manchas? Já reparou como estão ficando cada vez maiores e mais escuras.”

“Pois é, e o que a gente faz?”

Depois de uma consulta geral a todos os envolvidos – e sem que ninguém pensasse em qualquer outra alternativa menos pior -, a decisão comum foi, a contragosto geral, levá-la de volta à casa dos pais.

Nunca mais ninguém teve notícias de Nina, nem aquele e nem em outros verões depois.

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Após aquela espécie de iluminação enquanto limpava a gaiola das chinchilas, Jeremias decidiu, não sabia bem por qual motivo, que faria absolutamente tudo o que as pessoas ali faziam. Não perguntaria por que, apenas faria e esperaria acontecer o que tivesse que acontecer, se é que havia alguma coisa para acontecer.

Se as pessoas lá rezavam, ele também rezaria. Se as pessoas lá liam textos bíblicos, ele também leria. Se as pessoas lá passavam boa parte do dia lendo e escrevendo sobre as suas vidas em grossos cadernos, ele também leria e escreveria. Se as pessoas ficavam naquele lugar por um longo tempo, até que ganhassem condições de voltar para o mundo lá fora, ele também ficaria ali o tempo que achassem que fosse preciso para ele. 16-Ressurreição-Rodenbach-Père (3)

Jeremias não decidira agir daquela maneira porque acreditasse que aquilo tudo daria algum resultado, mas sim porque entrara numas de fazer tudo exatamente ao contrário do que havia feito, no passado, quando foi, por várias vezes, enclausurado em lugares parecidos com aquele onde se encontrava agora. Talvez, se fizesse tudo ao contrário, os resultados também seriam ao contrário, ou seja, talvez a coisa desse certo.

E, como não tinha absolutamente qualquer outra alternativa, simplesmente começou a deixar a coisa rolar.

Bem, é lógico que Jeremias também cogitou a possibilidade de que estivesse ficando louco de vez, mas, na pior das hipóteses, aquilo serviria para matar o tempo pelo menos durante a semana que começava naquela segunda-feira.

Depois, bem depois, ele veria o que podia ser feito, embora estivesse cada vez mais convencido de que, na situação em que se encontrava, não havia muito o que fazer.

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PARTE XIII

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João, às vezes, percebia que passava por um dos melhores momentos da sua vida. Então, de onde vinha aquela enorme angústia que o impulsionava, de diversas maneiras, a tentar detonar com tudo? Há alguns dias, sentado na privada, lera uma antiga entrevista de Eric Clapton, onde ele, refletindo sobre seus muitos problemas com a heroína e o álcool, afirmava que os artistas, em particular, possuem uma espécie de obsessão por comportamentos destrutivos. E isso, segundo Clapton, ocorria justamente quando tinham pensamentos criativos. Para fugir da dor que envolve todo o processo de criação, eles acabavam, de maneira inconsciente, chutando o pau da barraca. O problema, no caso, é que era justamente o pau da barraca “deles” que eles chutavam. Então, como é óbvio, eles é que se fodiam.

A questão é que Clapton era “Deus” e João não era nem mesmo um anjo de segunda categoria, muito menos artista. Sendo assim, a sua compulsão por detonar tudo quando as coisas iam bem não podia ser atribuída à obsessão que, conforme Clapton, vitimava muitos artistas. Eric-Clapton

De qualquer forma, essa conversa toda o levou a lembrar-se de quando, muitos anos atrás, um psiquiatra com quem se consultava, comentando a sua compulsão por álcool e qualquer outro tipo de droga que lhe caísse nas mãos, afirmou: “Cara, você tem que parar com isso. Você precisa entender e aceitar que não é o Keith Richards. Nem guitarra você toca, rapaz.”

Mas o ponto fundamental era que João, lá no fundo, começava a achar que a coisa toda com relação a Jeremias tinha a ver com essa sua irresistível tendência a jogar merda no ventilador, quando o ar ao seu redor começava a ficar puro. Afinal, ele estava quieto no seu canto, quer dizer, não tão quieto assim, já que havia tido a inconveniente idéia de começar a escrever um outro livro, mas pelo menos era o “seu” livro, e não a história de outra pessoa, que ele, aliás, tinha se empenhado muito em tirar da sua cabeça – e, lógico, do seu coração e, lógico, da sua vida.

De qualquer forma, já fazia cerca de duas semanas que Jeremias mantinha o mais absoluto silêncio.

Isso, contudo, não estava refrescando muito, já que, na falta de material novo, João continuava a remexer no material antigo. Cada vez que pegava no texto, achava que alguma coisa não estava boa e reescrevia tudo. Foi numa dessas suas investidas perfeccionistas que ele se deu conta de que o texto parecia estar ficando muito longo, em relação ao que ele imaginava que Jeremias tivesse originalmente encaminhado. Embora ele apenas pudesse imaginar o tamanho do texto original, resultado da soma dos fragmentos enviados por Jeremias, já que João tinha, recentemente, deletado tudo, num dos seus cíclicos acessos de fúria em que decidia nunca mais botar a mão naquilo, mas, por algum motivo, sempre acabava mudando de idéia. lf_keithrichards,0

Ao mesmo tempo, o reaparecimento de Jeremias, ainda que no mundo virtual, o tinha colocado novamente diante de um antigo dilema: enfrentar ou não o que ele chamava de “situações inacabadas”. Ele identificava várias dessas situações em sua vida, situações em que a gestalt não havia sido fechada, em geral porque os conflitos entre as pessoas envolvidas haviam sido muito intensos e a pressão tinha se mostrado insuportável, fazendo com que a opção fosse cair fora, deixando as coisas mal resolvidas. Os esqueletos, contudo, permaneciam dentro do armário e, de vez em quando, faziam barulho durante a noite. João tinha a sensação de que havia muitos fios soltos e desencapados, o que tornava a possibilidade de um curto-circuito uma ameaça constante.

Com freqüência, achava que só encontraria algum tipo de paz interior quando resolvesse, fechasse essas situações inacabadas. Mas logo se questionava se isso valia a pena. Afinal, como ele mesmo admitia, existiam várias dessas situações e, se ele entrasse numas de fechar cada uma delas, provavelmente teria que passar o resto da sua vida fazendo isso, e então nunca atingiria a tal da paz interior que almejava, já que, com certeza, morreria antes de completar a missão.

E havia ainda um outro problema: mexer com essas situações poderia, em vez de melhorar, piorar as coisas, já que as outras pessoas envolvidas poderiam muito bem não querer mais se meter com aquilo. Existia sempre a possibilidade de, ao se mexer na merda, ela feder ainda mais.

Por fim, ele também tinha sérias dúvidas a respeito de se essas situações inacabadas não estavam inacabadas apenas na cabeça dele. Se fosse assim, não havia nada a fazer, a não ser tentar começar a aceitar isso e seguir em frente.

Jeremias era mesmo um grande de um filho da puta!

_________________________________Capítulo XXI

A neblina deixava a cidade diferente e ele gostava disso. Aliás, qualquer coisa que deixasse a cidade diferente o deixava satisfeito. Quando percebia isso, se perguntava por que não dava um jeito de cair fora de uma vez por todas. Não havia o mínimo sentido em continuar vivendo numa cidade que só ficava interessante quando não parecia a mesma cidade, como acontecia agora, enquanto a neblina encobria o alto dos prédios da orla da praia e, do outro lado da avenida, próximo da areia, escondia o mar atrás de uma névoa branca e densa.

Mas aquela neblina logo se dissiparia e o calor se tornaria cada vez mais forte. Bem, mas enquanto isso não acontecia, ele poderia fingir que estava em outra cidade, ou melhor, “naquela cidade” onde, muitos anos atrás, ele e Jeremias viviam. Com certeza não era a mesma cidade por onde agora ele caminhava, seguindo a avenida à beira-mar. Ou talvez aquela cidade nunca tivesse existido, a não ser na cabeça daquelas pessoas. Mas Jeremias que se fodesse, ele iria continuar caminhando por aquela cidade estranha escondida e revelada pela neblina.28_PHG_cie_neblina

Aquelas mulheres reunidas na praça pareciam mães conversando sobre seus filhos, mas não estavam rodeadas de crianças, mas sim de cachorros, sete ou oito cachorros dos mais diferentes tamanhos e raças. Embora João não pudesse ouvi-las, devido à distância a que se encontrava, sentado num banco afastado, não havia dúvida de que elas falavam a respeito dos seus cachorros. João ficou alguns instantes observando os cachorros, alguns parados, apenas apreciando a paisagem, outros brincando entre si. Interessante aqueles cachorros, tão diferentes, se darem tão bem.

Havia alguma coisa errada naquela premissa quase religiosa que insistia em que éramos todos iguais. Estupidez, concluiu João, éramos todos diferentes, muito diferentes, não só em termos de raça, mas também em termos sociais, culturais, individuais. A saída, pensou ele – se é que havia uma saída -, era procurar conviver com as diferenças, aceitar a diversidade era o único caminho, como aquele grupo de cachorros estava demonstrando, de uma forma tão simples e direta.

Foi mais ou menos por aí que aconteceu. João se sentiu como se estivesse em outro lugar, aquela não era a praça pela qual já passara centenas de vezes e aquela não era a cidade onde ele vivia.  Gostava muito quando esse tipo de dissociação alterava a sua percepção. Era algo raro de acontecer e não se lembrava de nenhuma ocorrência do tipo nos últimos tempos. Quanto isso aconteceu pelas primeiras vezes, ele associou o fato a alguma possível seqüela do consumo, alguns anos antes, de ácido lisérgico, ou mesmo maconha. Logo percebeu, contudo, que, apesar das semelhanças na alteração de percepção, aquilo não tinha nada a ver com causas externas, mas internas. Embora tivesse deixando de consumir as duas substâncias há muitos anos, conseguia até mesmo provocar esses estados de percepção alterados, bastando concentrar-se para isso. Mas o que ele estava agora experimentando naquela praça não havia sido premeditado, pegou-o de surpresa. Sua única interferência proposital, no caso, foi tentar prolongar conscientemente aquele estado alterado o máximo de tempo possível.a

Ver coisas e lugares conhecidos como se fosse pela primeira era uma sensação incrível. Devíamos fazer isso mais vezes, pensou João, concluindo que a freqüência cotidiana com que vemos as coisas e os lugares de sempre embota a nossa percepção do real, já que, depois de um tempo, apenas registramos, sem ver, a imagem das coisas e dos lugares que está gravada em nossa mente. Ou seja, na verdade, não vemos, apenas pensamos que vemos. Se é assim com as coisas e os lugares, o mesmo deve ocorrer em relação às pessoas conhecidas. Depois de um tempo, também não as vemos mais, apenas imaginamos que as estamos vendo. Desconstruir nossa percepção embotada, durante períodos de tempo pré-determinados, devia se transformar num exercício usual, uma forma de treinarmos para perceber melhor a realidade…

A sirene estridente de uma ambulância que passava do outro lado da praça trouxe João, abruptamente, à realidade “normal”, ou embotada, isto é, a praça onde estava sentado voltou a ser a praça conhecida de sempre, localizada na cidade  que, sem dúvida, tinha voltado a ser a cidade de sempre. Até mesmo a neblina havia desaparecido.

Então, lembrou-se de Lennon que, no final de “God”, onde, depois de anunciar que o sonho havia acabado, dizia “então, meu caro amigo, o negócio é seguir em frente”, ou algo parecido com isso. De qualquer forma, decidiu seguir em frente, e bem em frente havia um grande shopping cujas lojas, àquela hora da manhã, começavam a abrir as portas. Enquanto entrava naquele local ainda quase deserto, lembrou-se de que, alguns anos antes, a construção daquele shopping naquele bairro e de um john_lennonenorme hipermercado em outro bairro havia começado a definir a cara que aquela cidade tinha hoje. Não era por acaso que os dois locais em que foram edificados os dois empreendimentos estavam, originalmente, reservados para parques, quadras esportivas e áreas de convivência. Não era por acaso que nos dois locais surgiram um enorme shopping e um grande hipermercado. Não era por acaso que ele gostava da neblina que parecia tornar uma outra cidade possível, pelo menos em sua cabeça.

Mas nem tudo estava perdido. Dentro do tal shopping, numa improvável prateleira dos fundos de uma livraria, um também improvável livro novo de Bukowski, “Ao sul de lugar nenhum”, com contos inéditos. João tinha praticamente certeza de que não havia mais nada publicado de Bukowski que ele ainda não tivesse lido. No entanto, ali estava a evidência de que isso não era verdade. Comprou o livro e foi embora da porra do shopping, com a sensação de que tinha se vingado de alguém, talvez do sujeito que havia construído aquela merda.

E como nem tudo estava perdido, ele logo divisou, algumas ruas depois, a placa do hotel onde ele e ela haviam passado uma noite, anos antes, na verdade uma noite de sábado para domingo. Lembrou-se, então, de que naquela noite de sábado eles haviam ido passear no tal shopping e ele tinha a sensação, naquela noite, de que estava numa outra cidade. Mas não se tratava de nenhum daqueles momentos de percepção alterada.  Ao contrário, a impressão era causada por dois fatos bem concretos. Um deles era que, pela primeira vez, ele e ela iriam passar uma noite inteira de sábado juntos, o que lhe dava a inusitada sensação de que eram um casal de verdade, e não dois foragidos da justiça, como em geral vinham se sentindo na época. O outro motivo era que ele jamais havia entrado, até então, naquele shopping. Assim, juntando essas duas coisas, era como estar passeando em outra cidade.charles_bukowski_1179083278051369-1

E lá estava a placa com o nome do hotel daquela noite de sábado. E lá estava ele olhando para a placa e pensando em quanto tempo havia se passado desde aquele dia, e como tinha sido bom passear com ela naquele dia, jantar com ela no quarto do hotel naquele dia, fazer amor com ela naquele dia, acordar ao lado dela e, então, descobrir que já era domingo e que ambos teriam que se despir de suas capas de super heróis e voltar ao mundo real. Bem, pensou ele, o mundo real agora não era tão punk como naqueles dias. Mais uma vez, João concluiu que nem tudo estava perdido.

Quando deu por si, estava em outra praça, bem distante da primeira, se aproximando do porto pelo lado inverso da ilha. Sentou num dos bancos, observou uma velha mendiga dormindo abraçada ao seu saco de farrapos e bugigangas. Então João olhou para suas mãos e percebeu várias pequenas manchas escuras e claras. Não havia dúvida, ele estava mesmo ficando velho.

_____________________________Capítulo XXII

Um amigo, que lera algumas coisas que ele escrevera, lhe disse: “Você parece alguém que, sentando à beira do cais, aguarda a chegada de um navio que nunca partiu.”

Naquele fim de tarde, olhando da janela do quarto os navios e barcos que passavam, era impossível não pensar em chegadas e partidas.

Um poeta, que já morrera e que, como ele, sempre morara naquela cidade, também vivia lhe falando sobre sua atração por navios e pelo cais do porto.

Um de seus poemas mais famosos falava justamente da angústia de ser tão fascinado pelo ir e vir das embarcações, sentindo, lá no fundo, que nunca partiria para lugar algum, pois suas raízes estavam por demais fincadas naquela terra visitada por tantos navios.FOTO19_Cais

O poeta cumpriu seu destino. Morreu sem partir, mas passou adiante a fascinação, a mesma fascinação que ele sempre sentia, quando, da janela, como acontecia naquele momento, acompanhava o vai-e-vem dos navios no mar.

“Um velho sujo demais

Sentado à beira do cais

E ninguém olha pra mim

Crianças brincam no escuro

E se arriscam no mar

Os homens perdem suas almas

E já não podem voltar

Velhos clandestinos já não têm valor

Não há mais promessas seja onde for.”

A noite já havia caído e os navios que aguardavam na barra a ordem para atracação piscavam suas luzes na linha escura do horizonte distante.

Ele não era um poeta como o poeta que morrera.

Viveram épocas diferentes, viram navios diferentes, amaram mulheres diferentes, devem ter sonhado sonhos diferentes, mas eram igualmente fascinados pelo ir e vir das embarcações no mar que cercava a cidade.

Ainda debruçado na janela, ele se perguntava quantas pessoas viviam hoje, naquela cidade, que ainda se fascinavam com o vai-e-vem dos navios, ou mesmo percebiam a presença deles ao largo da praia. Muito poucas, com certeza.

Mas que importância tinha isso, se o navio que ele aguardava chegar nunca havia partido?

João sentiu um arrepio ao ler aquilo.  Não se parecia com absolutamente nada do que Jeremias escrevera antes. Não era apenas o jeito de escrever, não eram as palavras usadas, nem mesmo o ritmo. Era algo além disso. Era, talvez, a forma como Jeremias se referia à cidade. Havia ali algo meio épico e, ao mesmo tempo, meio trágico. Definitivamente, aquilo não era a “cara” de Jeremias e, além disso, quebrava totalmente a seqüência das coisas que ele vinha abordando. Bem, na verdade, falar de “seqüência” no que se referia aos textos que Jeremias mandava beirava o absurdo, já que desde o início ele parecia fazer questão de, premeditadamente, quebrar qualquer cronologia em relação aos fatos que vinha relatando. No entanto, até então, tudo o que abordava pertencia, sem dúvida, a um mesmo universo, ou seja, aquelas coisas haviam acontecido num tempo e espaço comuns, ou pelo menos era isso que Jeremias dava a entender. Aquele novo texto, porém, parecia ter sido escrito a partir de um outro lugar e remetendo a uma outra época.

A impressão era de que Jeremias escrevera aquilo não baseado em imagens do passado guardadas em sua cabeça, mas realmente a partir do que seus olhos viam, no momento em que escrevera, na baía da cidade, com seus barcos e navios em constante movimento sobre o mar.

“Ainda debruçado na janela, ele se perguntava quantas pessoas viviam hoje, naquela cidade, que ainda se fascinavam com o vai-e-vem dos navios, ou mesmo percebiam a presença deles ao largo da praia. Muito poucas, com certeza.”

Foi isso, foi essa frase, mais do que qualquer outra, a pedra de toque que deixou tudo claro. Ao contrário de todos os textos que enviara antes, Jeremias, naquele último texto, estava começando, pela primeira vez, a contar a sua história sem precisar mais da intermediação de alguém. Era como se, de repente, ele tivesse descoberto o caminho das pedras.

O mais interessante – ou até certo ponto assustador – era que, ao ler pela primeira vez o texto que Jeremias acabara de lhe mandar, João não percebeu nada disso a princípio. Embora tenha até se emocionado com o que lera, fato bem incomum de acontecer quando tomava contato com os textos originais dos e-mails, mecanicamente se preparou para trabalhar em cima do novo texto, torná-lo mais claro, mais leve, trocar a primeira pessoa sempre usada por Jeremias nos originais pela terceira pessoa que João utilizava na narração da história, enfim, moldar mais aquele fragmento ao estilo que vinha tentando imprimir ao material já formatado.

Só quando começou a tentar mexer no texto é que percebeu que não havia absolutamente nada a fazer ali, estava tudo perfeito, e não apenas perfeito, mas impregnado de uma beleza, de uma poesia que ele jamais imaginara que Jeremias fosse capaz de expressar. Jeremias havia dado um passo fundamental ao escrever aquilo. Mas um passo fundamental exatamente para onde?  E, afinal, se Jeremias não precisava mais de alguém para contar a história que queria contar, qual seria a função de João dali para a frente?

Mas o que mais incomodava João, após ler aquele texto, era uma sensação maluca de que, naquele e-mail, Jeremias não estava mais falando de si, mas de alguma outra pessoa. Era como se Jeremias tivesse desistido de contar a sua história e, de repente, tivesse resolvido contar a história de outra pessoa. Mas, se fosse por aí, de quem era a história que Jeremias estava começando a contar agora?

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PARTE XIV

passos
________________________________Capítulo XXIII

Era óbvio que alguma coisa tinha acontecido, mas ele não fazia idéia do que se tratava.

Era óbvio também que tinha a ver com aquelas conversas intermináveis com aqueles dois homens, conversas que avançavam madruga adentro e nas quais ele contava tudo o que havia acontecido na sua vida até ali, tentando ser o mais honesto possível a respeito de tudo.

Era óbvio também que tinha a ver com colocar seus joelhos no chão e rezar, sem saber para quem e sem nada pedir.

Era óbvio também que tinha a ver com aquela densa neblina que encobria os morros quase todas as tardes e deixava a grama encharcada quando ia embora.

Era óbvio também que tinha a ver com como as estrelas brilhavam no céu escuro e pareciam eletrificar o ar gelado e limpo daquele inverno.

Era óbvio que tinha a ver com todas essas coisas e com muitas outras.

Mas tudo aquilo, na verdade, estava envolvo num grande e total mistério, já que, apesar de todos os motivos, não fazia o mínimo sentido ter acontecido, embora tivesse acontecido.

E ele não tinha a mínima dúvida a respeito disso.

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Sair de lá foi difícil. Não, na verdade não tinha sido fácil, bastou sair pelo portão. Difícil foi se acostumar com o mundo lá fora. O mundo continuava exatamente o mesmo, mas ele havia mudado, ou pelo menos achava que estava enxergando as coisas de outra maneira.

E a primeira dificuldade foi justamente essa: a sua nova maneira de enxergar as coisas em contraposição à velha maneira pela qual as pessoas pareciam continuar enxergando as coisas.

A sensação, nos primeiros dias, era de que ele não conseguia entender quase nada do que as pessoas falavam e as pessoas não entendiam quase nada do que ele falava. 6019

E havia também o medo, um medo imenso de que, no final das contas, tudo aquilo não passasse de mera ilusão, como das outras vezes em que saía de lugares parecidos com aquele em que estivera nos últimos meses.

Talvez nada de especial tivesse acontecido lá. Talvez, como o mundo que encontrara lá fora, ele também continuasse exatamente igual e, portanto, logo estaria de volta ao inferno de sempre.

Quem poderia garantir o contrário?

______________________________________Capítulo XXIV

Olhando para o mar, ele pensou que devia achar algo mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar.

Mas não conseguia pensar em nada mais importante, além do fato daquela porra daquele mar banhar a porra da cidade onde ele viveu grande parte da porra da sua vida.

Contudo, se alguém tinha mesmo que contar a porra daquela história, ele estava disposto a tentar. Por quê?  Ele não fazia idéia.

Isso, contudo, não importava.

Afinal, era apenas uma porra de uma história.

Era preciso, porém, encontrar alguém para escrever a tal história, já que ele mesmo, por uma série de razões que agora não vinham ao caso, nunca faria isso.

Mas quem faria isso, quer dizer, quem contaria aquela história? E que história era exatamente aquela?

sentado-na-praiaEstar naquela cidade novamente, depois de tanto tempo, era estranho e assustador. Se havia algo sensato a fazer, depois de tudo o que passara, era nunca voltar àquele lugar. Ironicamente, foi exatamente isso que fez. Quando cruzou aquela porta, pensou aonde ir. Os locais em que vivera nos últimos tempos estavam fora de cogitação.  Nenhuma das pessoas com quem convivera em tais lugares ficaria exatamente feliz em revê-lo. Muito pelo contrário e, em alguns casos, ele pressentia que isso envolvia até mesmo um certo risco de vida ou, na melhor das hipótese, algumas escoriações leves mas doloridas em seu corpo.

Então, como que atraído por imã invisível, foi sendo trazido de volta àquela cidade, e agora estava lá, olhando pra porra daquele mar e avaliando se não tinha feito uma grande cagada. Contudo, a idéia de escrever a história o animou um pouco. Seria, pelo menos, um objetivo, ainda que meio maluco, para preencher o tremendo vazio que sentia dentro dele e a falta de qualquer perspectiva a respeito da vida que levaria dali para a frente.

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O que primeiro chamou a sua atenção foi o título, A Porta dos Fundos do Paraíso. Depois achou engraçado que alguém tivesse escolhido a foto de uma minhoca para ilustrar a capa de um livro. Começou a folhear o livro, tentando descobrir de que diabos se tratava. Não conseguiu chegar à conclusão nenhuma, já que, em um trecho, aquilo parecia um romance, no outro, um tratado filosófico e, mais adiante, um manual de bruxaria. Ah, e havia lá também algumas páginas que pareciam ser poesia ou coisa semelhante. Worm_04Quando retornou à capa para rever a foto da minhoca, teve a impressão de que ela estava esboçando um leve sorriso. Mas definitivamente não foi isso o que o surpreendeu. O leve tranco no peito aconteceu quando viu o nome do autor. Puta que pariu, quer dizer que o cara tinha escrito um livro? Um livro maluco com um título maluco, A Porta dos Fundos do Paraíso. Ah, e com a foto de uma minhoca sorrindo na capa.

Puta que pariu! Não, puta que pariu era pouco.


_________________________________Capítulo XXV


“Olhando para o mar, eu pensei que devia achar algo mais importante pra dizer a respeito da porra daquele mar. Mas não consegui pensar em nada mais importante, além do fato daquela porra daquele mar banhar a porra da cidade onde eu vivi grande parte da porra da minha vida. Contudo, se alguém tinha mesmo que contar a porra daquela história, eu estava disposto a tentar. Por quê? Eu não fazia idéia. Isso, contudo, não importava. Afinal, era apenas uma porra de uma história. Era preciso, porém, encontrar alguém para escrever a tal história, já que eu mesmo, por uma série de razões que agora não vêm ao caso, nunca farei isso.

“É provável que você até se assuste com esta mensagem. Afinal, faz tanto tempo…De qualquer forma, sempre achei que, de todos nós, você era o cara que tinha o dom de escrever. Aliás, acabo de comprar seu livro. Foi na contracapa que descobri seu e-mail. Bem, como estou com um pouco de pressa e porque também não quero ficar tomando seu tempo, vou direto ao assunto. Queria te pedir para você colocar no papel, quer dizer, na tela do computador, uma história que eu queria que fosse contada. Além do tal dom que você tem, e sobre o qual já falei, acho você a pessoa ideal para contar a história, até porque você estava quase sempre por perto, quando tudo aconteceu. Aguardo uma resposta sua. Abraços, Jeremias. PS. Ainda não li o seu livro, mas pretendo começar ainda hoje.”selo b

Na semana seguinte, ele foi, pelo menos uma vez por dia, até alguma lan house, verificar se sua mensagem tinha sido respondida. Na última dessas vezes, desistiu de esperar uma resposta e resolveu escrever alguma coisa e mandar para paraisoperdido@denovo.com, o e-mail que ele tinha visto na contracapa do livro da minhoca sorridente.

No e-mail, Jeremias começava a contar uma história:

“E também não havia absolutamente nenhuma poesia no fato de seu pinto estar agora amolecendo dentro da boceta melada dela, logo após terem gozado. Isto é, se é que ela também havia gozado.

“Tempos atrás, uma outra mulher, com quem ele havia acabado de trepar, lhe disse que a última coisa que queria ouvir, depois de uma trepada, era o cara ao seu lado lhe perguntando se havia gozado.

“Desde então, ele, que antes achava “elegante” perguntar se a parceira também tinha gozado, nunca mais abriu a boca após uma trepada. Somente ficava lá, de barriga pra cima, olhando o teto, como estava fazendo agora, depois de ter gozado dentro da boceta de Mô.

“Apesar de se conhecerem há anos, era a primeira vez que ele e Mô trepavam. Os dois já haviam trepado com quase todo mundo ao redor, mas nunca tinha rolado entre eles. Mô resumiu a situação quando ele começou a enfiar seu pinto nela e ela disse: “Caramba, até que enfim. Eu pensei que isso nunca fosse acontecer com a gente”.

“Na verdade, o ácido que eles haviam tomado contribuiu muito para aquilo tudo. Era um ácido particularmente fraco, pois naquela época já era difícil arrumar alguma coisa de qualidade na cidade. No entanto, eles tomaram a pedra num dia atípico, totalmente atípico…”

_______________________________Capítulo XXVI

Na verdade

Perder contato é fácil

Astronautas sabem disso

Também os controladores nas torres

Devia haver um avião bem aqui

Mas ele não está aqui, nem ali

Ou em lugar algum

Na verdade

Perder contato é fácil

Antes nos víamos quase todos os dias

Agora trocamos e-mails de vez em quando

Escrever cartas nem pensar

Seria muito íntimo

E, afinal, somos adultos

Na verdade

Perder contato é fácil

Antes havia algum sentido

Acordar de manhã

Escovar os dentes e dar um beijo em você

Levar o lixo lá fora

Sair de casa

Voltar

Deitar ao seu lado

Dormir e acordar

Na verdade

Perder contato é fácil

Basta a gente se distrair

Não sabia por que, mas tinha resolvido começar a ler A Porta dos Fundos do Paraíso pelas páginas com poesias, localizadas mais ou menos lá pela metade do livro.  Nunca gostara de poesia, na verdade achava poesia um tremendo pé no saco. Além disso, nunca soubera que João fazia poesia. Aliás, eles dois faziam questão de declarar, pra quem quisesse ouvir – e principalmente quando havia por perto alguém metido a poeta – que odiavam poesia, que poesia era coisa de babaca, escroto e assim por diante.

No entanto, aquelas poesias, jogadas lá no meio do livro, estavam, por estranho que pareçesse,  lhe dizendo alguma coisa, em especial aquela, que falava da perda de contato. Ele compreendia exatamente o que aquelas palavras queriam dizer, porque ele se sentia exatamente assim, olhando para os navios ancorados na barra, aguardando a hora de entrar no canal para atracar no porto, um pouco mais além.

Talvez comentasse sobre isso no próximo e-mail que mandaria para o João.

No momento, porém, a prioridade era arranjar um lugar para passar a noite.


______________________________Capítulo XXVII


“Nós só queremos que Deus nos mostre a sua face”.

Foi o que ele disse, lá sentado naquele sofá

Em frente às câmeras de TV

Ele não teria dito nada

Mas então o sujeito lhe perguntou:

“O que vocês pretendem?”

Então ele disse:

“Nós só queremos que Deus nos mostre a sua face”.

E o apresentador ficou calado

E os homens atrás das câmeras ficaram calados

E todas aquelas pessoas sentadas na platéia também ficaram caladas

Então ele se levantou, disse boa noite e foi embora

Outra boa poesia, sem dúvida, mas o que ele queria mesmo era que o shopping abrisse logo. Precisava, urgentemente, usar o photo_kerouac_cassadybanheiro. Estava há três dias vivendo nas ruas e seu dinheiro o obrigava a fazer, todas as noites, uma escolha crucial: ou pagava por um lugar para dormir ou comia no dia seguinte. Como comer sempre lhe pareceu mais importante, ele descobriu que dormir nos bancos dos jardins da praia não era tão ruim assim, ainda mais durante a primavera, que naquela cidade era quase tão quente quanto o verão.  Mas sua principal preocupação naquele momento não tinha nada a ver com comida ou cama, mas com o fato de que, logo, também não teria mais dinheiro para usar os computadores das lan houses.  Sendo assim, teria que interromper a narração da sua história até que as coisas melhorassem. A ironia daquilo tudo é que havia gasto um dinheiro precioso, na situação em que se encontrava, comprando a porra do livro de João. Era incrível como João ainda continuava complicando a sua vida, mesmo distante e sem que tivessem qualquer contato há anos.

É claro que ele poderia muito bem procurar Marisa e lhe pedir algum dinheiro emprestado. Contudo, não lhe parecia uma boa idéia pedir ajuda à irmã, depois de ter destruído o carro de seu cunhado, alguns anos antes, quando capotou na avenida da praia, sem qualquer motivo, a não ser estar completamente bêbado e chapado. João estava com ele e o mais impressionante foi que, ainda dentro do carro, virado de cabeça para baixo, ficaram olhando um para a cara do outro, até começarem a sentir um forte cheiro de gasolina e perceberem que o tanque estava vazando e que aquela porra podia explodir a qualquer momento. O carro não explodiu e eles sofreram apenas alguns arranhões, mas seu cunhado nunca mais falou com ele, nem com João.

Outra razão para não procurar nem a irmã, nem mais ninguém naquela cidade era que queria permanecer anônimo o máximo de tempo possível. Sempre sonhara em fazer isso um dia e agora ali estava a oportunidade. Tivera uma intuição de que, se ninguém soubesse que ele estava na cidade, poderia contar melhor a história que queria contar.

No entanto, embora não gostasse da idéia, a única alternativa, naquela situação, era procurar Júlio e tentar vender as coisas que deixara guardadas com ele, antes de ser obrigado a dar o fora. Mas isso envolvia dois problemas: primeiro, encontrar Júlio depois daqueles anos todos; segundo, será que Júlio ainda estava com as coisas que ele havia lhe pedido para guardar?

guitar-playerEra bem improvável que Júlio ainda morasse no mesmo lugar, um minúsculo e velho apartamento, no último andar de um prédio caindo aos pedaços, localizado numa avenida que levava ao atracadouro das balsas que faziam a travessia para a cidade que ficava na ilha vizinha.

Localizar o prédio não foi difícil. Embora a fachada da construção tivesse passado por uma reforma total, o que lhe dava uma aparência bem diferente da imagem de decadência que o edifício apresentava antes, o prédio se destacava ao contrário, por ser o mais baixo naquele trecho da avenida, dominado por novas e altas edificações.

Então era subir até o último andar e checar se ainda havia notícias de Júlio por ali. Agora existia uma guarita junto ao portão, mas nenhum guarda dentro dela. Jeremias apertou várias vezes o que parecia ser uma campanhia, mas ninguém apareceu. Já estava quase desistindo, quando uma velhinha, atrás dele, com uma chave em riste, pediu licença para abrir o portão que Jeremias estava inadvertidamente bloqueando. Ele se afastou, a velhinha abriu o portão e já ia fechando de novo, quando Jeremias arriscou perguntar: “O Júlio ainda mora nesse prédio?”. “Quem, aquele vagabundo?”, devolveu a velhinha. “Bom, é o sujeito que morava no último andar.” “É, aquele vagabundo. Infelizmente, ele ainda mora aqui sim, aquele vagabundo”, afirmou a velhinha, batendo o portão com força na cara de Jeremias.

Pelos primeiros indícios, Júlio não só continuava morando ali como também preservara, durante todos aqueles anos, a portadadpia6imagem que tinha na vizinhança, o que fez Jeremias especular sobre o que mais na vida de Júlio permanecia exatamente igual a antes.  Dependendo do grau de imutabilidade, Jeremias certamente teria de se cuidar.

“O que o senhor deseja?”. A voz forte veio de dentro da guarita, assustando Jeremias e arrancando-o de suas reflexões existenciais. “Estou procurando o Júlio”, respondeu, olhando para o vidro escuro da guarita que falava. “Qual o número do apartamento?”, perguntou a guarita fantasma. “O número eu esqueci, mas fica no último andar”. “E qual o seu nome?”, perguntou mais uma vez a guarita falante, após um breve intervalo. “Jeremias”.

Um ruído eletrônico destravou o portão e Jeremias avançou alguns passos para dentro, bem ao lado da janela lateral da guarita. Lá dentro, um homem negro disse: “Pode subir. O número do apartamento é 72.” No elevador, que também havia sido reformado, apresentando agora um aspecto limpo e espelhos nos dois lados, Jeremias riu, recordando que Júlio nunca se dera bem com os vizinhos, mas sempre mantivera boas relações com os empregados do prédio. Parece que isso também não mudara.

O corredor do sétimo andar também havia sido repaginado. Massa corrida nas paredes e uma nova pintura cobriam completamente as rachaduras, desenhos em spray e pichações. As portas, inclusive a do apartamento 72, estavam revestidas de uma cor bege bem suave e sóbria. Apertou a campanhia, mas não ouviu barulho algum. Resolveu bater na porta. Esperou um pouco e bateu de novo. A fechadura então fez barulho e lá estava ele, Júlio, cara inchada de quem havia acabado de acordar. Como já eram quase quatro horas da tarde, Jeremias concluiu que os hábitos de Júlio em relação ao sono também não haviam sofrido grandes transformações.

– E aí, cara?

– Puta que pariu! Assombração!

– Você achou que eu tinha morrido?

– Não…na verdade não tinha certeza, mas achava que não. Essas coisas a gente sempre acaba sabendo.

– Bom, mas e aí?

– Ah, então, entra aí cara, entra aí.

Jeremias fez um rápido resumo do que havia acontecido e do que havia mudado nos últimos tempos, enquanto Júlio fez um rápido resumo do que não havia acontecido e não havia mudado no mesmo período.  Recordaram a última vez em que tinham se visto: num domingo, também na casa de Júlio. Como em quase todas as tardes de domingo, eles se reuniam para ensaiar a banda que um dia se transformaria em sucesso nacional e, quem sabe, até internacional. Bastava, para isso, que as pessoas finalmente sacassem que as músicas deles eram infinitamente melhores do que tudo o que havia no mercado na época. Enquanto não eram descobertos, eles ensaiavam, ou pelo menos chamavam de ensaios aquelas reuniões dominicais no apartamento de Júlio, regadas a litros de álcool e a razoáveis quantidades de qualquer tipo de droga que eventualmente fosse disponibilizada a cada encontro. guitar-player

Aliás, Jeremias lembrava bem daquele último ensaio que fez com Júlio, anos atrás. Estavam só os dois passando algumas músicas, quando chegou um tal de Murilo, que Júlio havia conhecido alguns dias antes. O sujeito tocava guitarra, e tocava bem, como demonstrou quando começou a ensaiar com eles. Só que, de repente, ele parou, abriu um pacote de cocaína, separou uma parte e perguntou se tinha água destilada. Era lógico que não havia água destilada ali, na verdade não havia nem água filtrada, já que Júlio nunca se dera ao trabalho de instalar um filtro no buraco que chamava de cozinha.

– Destilada não tem, mas você pode ferver, tem panela aí, disse Júlio.

– Não precisa não, eu dou um jeito aqui mesmo, respondeu Murilo, que em fração de segundos estava tirando sangue da veia de seu braço esquerdo com uma seringa que pareceu ter surgido por mágica em suas mãos. Completada a operação, Murilo foi até a cozinha e trouxe uma colher, onde depositou o sangue retirado de seu braço. Depois jogou a cocaína na colher e mexeu o sangue com dedo. A seguir, sugou a mistura com a seringa, balançou um pouco e injetou em seu braço.

Enquanto Murilo batia a porta do apartamento, depois de ter se despedido pedindo desculpas pelo “vacilo, mas não deu pra segurar”, Jeremias e Júlio ainda estavam de boca aberta, tentando assimilar o que havia acontecido. Não voltaram a tocar. Desceram e foram para um bar encher a cara.

Depois de relembrar essa história junto com Júlio, Jeremias começou a reparar um pouco melhor onde estava. Talvez estivesse delirando, mas tudo dentro daquele apartamento parecia, depois de tantos anos, estar exatamente igual àquele dia em que Murilo devolveu seu sangue às suas veias, após adicionar cocaína nele.

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PARTE XV

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______________________________Capítulo XXVIII

Foi muita estupidez imaginar que as bugigangas que haviam ficado com Júlio poderiam render alguma grana decente.

A moto tinha se transformado num monte de ferro-velho enferrujado, depois de permanecer guardada durante todos aqueles anos num dos três ou quatro pequenos armazéns clandestinos que o pai de Júlio mantinha na zona portuária. O jeito foi aceitar a mixaria que a única pessoa que poderia se interessar por aquilo ofereceu, ou seja, o dono de um ferro-velho.

Alguns móveis, guardados no mesmo armazém, já tinham virado comida de cupim. E os cupins não haviam deixado nem um bilhete, agradecendo pela refeição.

Era óbvio que as duas TVs já não funcionavam mais, nem o aparelho de som ou os dois amplificadores, tanto o maior quanto o menor.

Bem, a guitarra estava em boas condições, mas isso só havia acontecido porque Júlio a tinha “adotado” e ela, desde que Jeremias partira, tinha se transformado em companheira fiel de Júlio, o que com certeza havia causado ciúmes doentios na sua fiel Fender trazida dos EUA e desde então deixada em segundo plano, abandonada num canto do quarto/sala de Júlio.corrupcao_suborno

Jeremias, a princípio, não queria aceitar, mas Júlio insistiu tanto que ele acabou enfiando no bolso aquela “ajuda de custo” em troca da cessão definitiva do instrumento.

Afinal, Jeremias estava mesmo precisando desesperadamente de dinheiro e até aquela grana ridícula oferecida por Júlio pela guitarra fazia diferença na situação em que se encontrava. Ao mesmo tempo, àquela altura do campeonato, a última coisa que Jeremias estava precisando era de uma guitarra velha, mesmo que ela agora estive funcionando perfeitamente.

Trocando em miúdos, a grana conseguida por Jeremias dava para ele arrumar um lugar para dormir por alguns dias e continuar freqüentando as lan houses, para mandar seus e-mails para João, seu principal e único projeto no momento.

Estava de bom tamanho, pensou ele, enquanto se despedia da guarita falante e batia o portão da rua do prédio de Júlio, após recusar sua oferta para que dormisse ali por alguns dias.

___________________________Capítulo XXIX


Já estava a alguns quarteirões de casa quando concluiu que aquilo não fazia sentido algum.  Colocou as duas mochilas no chão e sentou-se na beirada do canal.  Sentiu-se envergonhado, pois percebeu a infantilidade de toda aquela merda. Só mesmo uma criança ou alguém seriamente perturbado poderia achar que fugir seria solução, solução para a travação em relação a escrever um cada vez mais improvável segundo livro, a solução para se livrar daquele beco sem saída em que se sentia aprisionado desde que Jeremias havia começado a lhe enviar aqueles e-mails malucos, a solução para aquele desespero profundo que tomava conta dele sempre que se pegava sozinho em casa e não conseguia fazer mais nada além de passar horas navegando na internet e buscando inutilmente algo para ver na TV a cabo, evitando assim, de todas as formas possíveis, pegar o notebook e tentar dar continuidade àquelas duas páginas que começavam com a frase “foi uma longa jornada dentro da noite”, exatamente a mesma frase com que encerrara A Porta dos Fundos do Paraíso.backpackers 1

O mais absurdo, porém, era que tinha decidido fugir sem nem sequer imaginar para onde ir. E qual seria a reação dela ao chegar em casa e perceber que ele havia simplesmente sumido? Claro, não seria a primeira vez que algo assim acontecia, só que tudo tem um limite e talvez o limite dela, justamente daquela vez, já tivesse se esgotado. Então, por todos os motivos do mundo, ele, como sempre fizera das outras vezes, deu meia volta e retornou para casa.

Enquanto tirava as roupas da primeira mochila e retirava o notebook da segunda, colocando-o sobre a mesa da sala, João entendeu que, de uma forma ou de outra, estaria preso ali, até que terminasse o que havia começado. O problema é que ele não sabia bem o que havia começado.

A sensação de que precisava terminar o que havia começado se referia, afinal, ao livro do qual só havia escrito duas páginas, à história que Jeremias vinha contando através dos e-mails ou a alguma outra coisa que ele não estava percebendo?

Essa última hipótese parecia fazer algum sentido, isto é, talvez ele não tivesse que terminar especificamente uma coisa, mas sim definir, de uma vez por todas, o que queria fazer da porra da vida, já que andar em círculos e imaginar que sabia para onde queria e devia ir, embora nunca saindo do lugar, havia se transformado na sua principal e única atividade nos últimos tempos.

Lembrou-se então de um filme francês que havia visto na TV, no qual um executivo abandona sua vida profissional de sucesso em Paris e vai para o sul da França, onde monta uma pousada com a mulher. Descobre, porém, que sua verdadeira vocação era fabricar azeite com as azeitonas que nasciam numa propriedade rural próxima à sua. A sua mulher, que não se adaptara à vida naquela pequena aldeia onde foram morar, volta para a cidade, mas ele continua lá, tentando apreender a distinguir, a partir dos seus pequenos ramos, a diferença entre os vários tipos de oliveira e a relação disso com a espécie de azeite que podia ser produzido com as azeitonas de cada árvore. backpackers 2

João concluiu, porém, que todo aquele blá-blá-blá podia não passar de mais uma grande e estúpida fantasia, daquelas que o levavam sempre ao mesmo lugar: a parede bem em frente ao seu nariz. Por isso, saiu novamente de casa, desta vez sem as mochilas. Ia apenas caminhar pelas ruas e ficar cansado o suficiente para esquecer aquela confusão toda, pelo menos por algum tempo.

_______________________________Capítulo XXX

João já tinha passado por ali centenas de vezes e só naquele dia reparou que, no lugar onde agora funcionava uma casa de ferragens, havia, muitos anos atrás, um bar gay. Eles tinham tocado ali uma ocasião, dividindo um pequeno palco com uma outra banda, da qual ele não recordava nem o nome nem os integrantes.

Todos os contatos para a apresentação haviam sido feitos por Sami. Portanto, nem ele, nem Jeremias, nem os outros membros da banda sabiam que iriam tocar num bar gay. Não que isso fizesse alguma diferença, já que todos chegaram ao lugar, como sempre, muito altos, a ponto das pessoas, que se aglomeravam em frente ao palco, serem apenas vultos difusos se balançando ao som das canções que eles tocavam. A única coisa impossível de não perceber, apesar de toda a chapação, era a animação daquele pessoal, com certeza um dos públicos mais receptivos para o qual já tinham se apresentado. 1262521-The-Gay-Bar-0

Os problemas começaram mesmo quando alguém se aproximou do palco e avisou que aquela devia ser a última música da seleção, já que a outra banda iria tocar depois.  Jeremias não gostou da idéia e explicou para a mulher que parecia ser a dona do bar que eles ainda estavam embalando e que, se parassem naquele momento, seria difícil retomar a coisa mais tarde.

A mulher explicou que por ela tudo bem, mas que a outra banda estava insistindo pra tocar e que aquele revezamento depois de seis músicas era parte do acordo que Sami havia feito. E como Sami tinha sumido, não havia como checar se era aquilo mesmo ou não. Dessa forma, eles resolveram parar. Desceram do palco e foram, primeiro, para o banheiro, e depois para o balcão.

Aliás, foi no caminho do banheiro que eles repararam que duas garotas estavam se amassando no corredor, muito à vontade, o que continuaram a fazer sem nenhum constrangimento pela presença deles.

Quando alguém avisou que era hora de voltar ao palco, a notícia não provocou muito entusiasmo, já que todos preferiam, àquele altura, continuar onde estavam, isto é, enchendo a cara no balcão e fazendo excursões ao banheiro. Mas, como afinal o Sami havia combinado daquela forma, eles resolveram voltar a tocar. E é o que teriam feito, se alguém da outra banda não houvesse vomitado no palco. foto

Na verdade, parecia que todos os membros da outra banda tinham vomitado ao mesmo tempo, já que o palco parecia um mar de merda, isto é, de vômito, ou pelo menos era a impressão que dava, naquela iluminação precária do ambiente. Eles disseram então que era preciso que o palco fosse limpo, já que não havia condições de tocar em cima daquele vômito todo.

A mulher do bar disse que todos os funcionários estavam ocupados servindo os clientes e que não seria possível limpar o palco àquela hora. Jeremias respondeu que, em cima do vomitado, ninguém ia tocar. Algumas pessoas na platéia começaram a vaiar, já que a música tinha parado.

Jeremias subiu ao palco, esgueirando-se por entre as poças de vômito, pegou o microfone e explicou que a outra banda tinha vomitado no chão e que assim não daria pra tocar. As pessoas pareceram entender a situação e alguém, lá do fundo, sugeriu que se fizesse uma barricada de mesas em frente ao palco, e que eles tocassem em cima das mesas. Afinal, todos estavam ali para ouvir um som e não era justo que a noite terminasse por causa de algumas vomitadas no palco. foto 2

De repente, o bar parecia estar passando por reformas, já que mesas começaram a ser arrastadas de um lado para o outro, até que uma fileira delas se formou em frente ao palco. Várias mãos se ofereceram para ajudar a subida dos músicos em seus respectivos pedestais. Só quando eles chegaram lá em cima é que perceberam que manter-se de pé naqueles poleiros, e ainda por cima tocando, não seria nada fácil, até porque, enquanto se discutia se o som continuava ou não, nenhum deles parou de beber e, agora, lá de cima, a sensação era a de estar dentro de um frágil barco, em alto mar, no meio de uma tempestade.

Contudo, depois de toda aquela confusão, não havia como não tocar. Por isso, eles tocaram, ou tentaram fazer algo parecido com isso. Seja lá o que eles fizeram, as pessoas parecem ter gostado, já que não paravam de dançar e gritar. E tudo continuou assim quase até quase o amanhecer, quando João sentiu o chão, quer dizer, a mesa sumir debaixo de seus pés.

Quando voltou a si, João estava no meio de um círculo de pessoas que o olhavam preocupadas. Alguém disse que era melhor levá-lo até o pronto-socorro. Lá, levou vários pontos na cabeça e ficou em observação.

Aquela apresentação no bar gay, que agora tinha virado uma loja de ferragens, foi a última da banda. foto 3

FINAL

vento

_______________________Capítulo XXXI

Seus olhos pareciam ter sido hipnotizados por aqueles CDs e DVDs enfileirados desordenadamente na estante. A grande maioria deles havia sido baixada compulsivamente na internet. Quando aquilo começou, alguns anos atrás, ele sentiu-se no paraíso, resgatando tantas coisas que haviam se perdido pelo caminho e que ele jamais imaginou ser possível recuperar. Agora, olhando para aquele monte de música e vídeos empacotado nas mídias digitais que abarrotavam as prateleiras, chegava à conclusão de que, mesmo se vivesse tanto quanto tinha vivido até ali, nunca seria capaz de ouvir e ver aquilo tudo.

Mas o que o angustiava João não era isso, já que, há tempos, sabia que as coisas importantes para se sentir e viver antes de morrer já não estavam mais em estantes como aquela, mas sim dentro dele. O motivo de sua angústia era o fato de ter perdido tanto tempo armazenando tudo aquilo, acreditando que aquilo, de alguma forma, ainda podia salvar a sua vida, como ele achava que acontecera algumas vezes no passado. E nem mesmo a respeito da existência real desses supostos salvamentos ele tinha certeza agora. Em todo o caso, sempre podia estar enganado, a respeito de tudo. estante

Então sentou ao computador, anexou o arquivo e clicou em enviar.

Jeremias já havia se esquecido do lance no bar gay e se divertiu bastante relembrando aquela noite, mas ficou se perguntando por que diabos João tinha lhe enviado aquele relato por e-mail. Afinal, era ele, Jeremias, quem pedira a João para escrever a história que ele queria contar, e não ao contrário. Agora, do nada, João, sabe-se lá por que motivo, lhe encaminhara aquele texto. Ora, seria mais coerente se João simplesmente tivesse acrescentado o episódio à narrativa que já estava escrevendo, com base nas coisas que Jeremias lhe mandava.

Bem, era besteira ficar cobrando coerência de João, e o fato de ele ter enviado o relato sobre aquela noite no bar gay era sinal de que estava, na verdade, bastante envolvido com a história que Jeremias estava contando, tanto que ele próprio andava desenterrando fragmentos de coisas ocorridas naquela época.  Mas o que João pretendeu, quando mandou aquilo? Foda-se, pensou Jeremias, enquanto se abrigava numa marquise, tentado escapar da chuva que começara a desabar de uma hora pra outra.

O vento estava soprando novamente. Há cerca de três ou quatro dias, várias vezes durante cada dia, aquele vento soprava por sobre a cidade. João não sabia explicar por que, mas sentia que aquele vento, soprando e soprando, às vezes mais forte, outras vezes mais fraco, às vezes frio, às vezes quente, queria dizer algo, ou melhor, aquele vento estava “fazendo” algo naquela cidade. Lembrou de Dylan, dizendo que ninguém precisava ser um meteorologista para saber em que direção os ventos sopram. E para onde sopravam aqueles ventos? Ciclone

Pra variar, de repente, achou que aquilo tudo podia ser uma grande besteira. Estava ventando porque estava ventando, muito provavelmente em função das mudanças climáticas meio malucas provocadas pela primavera, que já avançava rápida rumo ao começo do verão. Estava ventando e isso não significava absolutamente nada além do fato de que estava ventando. Só isso. Como sempre, ele perdia um tempo precioso, atribuindo significados importantes a tudo o que acontecia. Tempo precioso! E por que seu tempo era tão precioso assim? Ele não sabia, e com quase toda a certeza isso também não tinha a mínima importância.

Seja como for, ele sentiu uma necessidade urgente de voltar para casa. Não só voltar para casa, mas de encontrar com ela e dizer que eles precisavam dar o fora o quanto antes. Tinha que convencê-la a fazer isso já. O problema é que ela, sem dúvida, iria querer saber qual o motivo dessa fuga desesperada, e ele não tinha nenhuma resposta convincente para isso, já que apenas sentia que era preciso dar o fora o mais rápido possível, pois, se insistissem em ficar naquela cidade, corriam até mesmo risco de vida. E tudo tinha a ver com aquele vento estranho que vinha soprando nos últimos dias.

Jeremias também sentiu o vento. Caminhava pela praia e se surpreendeu com o fato do vento estar levantando tanta areia. Lembrou-se de uma tempestade no deserto e teve de proteger os olhos. Do nada, como começara, o vento parou. Jeremias começou então a dar tapas na sua camisa e na sua bermuda, para tirar a areia que havia se grudado em suas roupas. Ainda não tinha terminado de fazer isso, quando o vento voltou a soprar, dessa vez ainda mais forte do que antes. Percebeu que as poucas pessoas que caminhavam pela praia naquele fim de tarde começaram rapidamente a fugir da faixa de areia, em direção aos jardins que separavam a praia da avenida. A princípio, Jeremias revolveu resistir e continuar caminhando, mas logo percebeu que isso seria impossível. O vento soprava cada vez mais forte e levantava cada vez maiores quantidades de areia. Decidiu então também fugir para a avenida.furacao

Quando chegou ao final do jardim e se preparava para atravessar a avenida, percebeu que, novamente, o vento havia passado. O ar agora estava parado e denso, como se alguém tivesse apertado um interruptor e “desligado” a ventania. Enfiou-se na primeira lan house que encontrou, decidido a escrever algo sobre aquilo e mandar para João. Mas mudou de idéia e ficou apenas olhando a tela vazia do monitor e se perguntando se aquele vento estranho queria dizer alguma coisa. Lembrou-se então da época em que muita gente dizia que a cidade seria coberta por uma gigantesca onda e como ele achava aquilo tudo estúpido.  Provavelmente, o vento era somente vento e não queria dizer absolutamente nada, era apenas ar soprado de um lado para o outro, naquele momento, na superfície do planeta ocupada por aquela cidade. Levantou-se da bancada do computador, sem ter escrito nada, e foi embora.

Se Jeremias tivesse aberto sua caixa postal, em vez de ficar viajando como um idiota enquanto olhava para a tela em branco do computador na lan house, saberia que João havia lhe enviado um e-mail, falando exatamente sobre aquele vento que soprava na cidade há alguns dias.

“Tudo tem a ver com esse vento”, disse João para ela, logo que chegou em casa, tentando explicar por que eles precisavam cair fora daquela cidade. “Será que você não está sentindo esse vento?”, perguntou João. É claro que ela tinha sentido o vento, mas não via a mínima relação da porra do vento com aquela idéia maluca de fugir da cidade sobre a qual João não parava de falar desde que chegara da rua.

No e-mail que enviara a Jeremias, João afirmava: “Ela achou que eu tinha pirado de vez, com aquela história de vento e de querer sair da cidade. Na verdade, já há algum tempo vínhamos conversando sobre a possibilidade de nos mudarmos para outro local, onde nos sentíssemos mais ‘em casa’, coisa cada vez mais difícil por aqui. No entanto, ela ficou realmente assustada quando eu comecei a falar do vento e de como corríamos risco de vida, se não déssemos o fora rápido. Pela primeira vez em muitos anos, me perguntou a sério se havia voltado a usar drogas, e não pareceu muito convencida diante da minha negativa. ‘Se não é droga, você tá surtando de novo. É melhor procurar ajuda’, disse ela, me olhando preocupada e esperando uma reação minha. Minha reação foi simplesmente repetir: ‘Precisamos dar o fora já. Ou o vento vai nos destruir.’”aovento

Jeremias não gostava de admitir aquilo, mas era o vento que, nos últimos dias, o levava diariamente a observar o mar, para checar se seu nível não estava aumentando. Naquela semana, havia sonhado quase todas as noites. O enredo dos sonhos era diferente, mas eles terminavam sempre da mesma maneira. Ele, João, Cris e todos os outros estavam lá, naquela praia, quando um vento forte, às vezes quente, às vezes frio, começava a soprar. Então eles olhavam em direção do mar e, através de uma espessa cortina de areia que a ventania criava, eles viam uma enorme onda se formando e avançando rumo à praia. Logo depois Jeremias acordava, suando e com a cabeça coberta pelo lençol, como se estivesse se protegendo da grande onda que se aproximava.

Desde que os sonhos começaram – e ele tinha quase certeza de que os sonhos haviam começado no momento em que aquele vento começou a soprar sobre a cidade -, Jeremias não havia conseguido escrever mais nenhum trecho da história que ele queria que João contasse. Estava totalmente obcecado pelo vento – e pelo nível do mar.

Assim que abriu os olhos, João pensou que havia sonhado, mas depois considerou a hipótese de que estivesse apenas recordando, de olhos fechados, aquelas imagens. Afinal, ele não estava dormindo, somente deitado, ouvindo música, quando a cena, de contornos bem nítidos, foi se formando em sua cabeça. Ele e Sara, mais de 30 anos atrás, caminhando à noite na praia. Passaram longo tempo no escuro, se amassando. Depois andaram em direção à avenida. Quando estavam próximos do jardim que separava a areia da avenida, João sentiu-se estranho. Seu corpo parecia mais pesado, mas tinha a impressão de que seus pés deslizavam a alguns centímetros do chão, como que sustentados por minúsculos colchões de ar. predio

Ao olhar para os prédios, do outro lado da avenida, eles pareciam estar lentamente derretendo. A sensação durou cerca de um minuto. João não sabia se Sara estava sentindo e vendo as mesmas coisas que ele, no entanto tinha a impressão de que sim, por isso, ou talvez por medo, não comentou nada com ela sobre aquilo, nem naquele momento nem em qualquer outra ocasião.

Na época, achou que aquela sensação podia muito bem ser um efeito retardado do ácido, embora tanto ele quanto Sara houvessem então, quando muito, realizado duas ou três viagens, a última delas vários meses atrás. Agora, porém, ao recordar aquela cena João já não tinha tanta certeza de que aquele episódio, ocorrido há tanto tempo naquela praia, tivesse sido causado por um mero efeito colateral lisérgico.

A questão é que agora, ao se recordar daquela cena, João se lembrou também de que, quando os prédios estavam “derretendo”, um forte vento, vindo da praia, soprava através da avenida. O curioso é que, durante todos aqueles anos, ele não havia se dado conta disso, como se a lembrança daquele forte vento, mais de 30 anos atrás, tivesse ficado todo esse tempo bloqueada por seu subconsciente. Por quê? João não sabia responder, mas mandaria um e-mail para Jeremias abordando o assunto.

No minúsculo quarto da pensão onde estava dormindo – sua nona morada desde que chegara a cidade -, Jeremias acordou com sua cama tremendo. Foi até a janela e viu o bate-estaca no terreno ao lado, cravando na terra mais uma profunda coluna de aço que sustentaria o alicerce de mais um alto prédio que estava sendo construído na cidade. Sentindo tudo tremer à sua volta cada vez que a máquina golpeava a estaca contra o chão, Jeremias se perguntou se tantas estacas, tão longas, cravadas simultaneamente em tantos pontos da cidade, não acabariam, a qualquer momento, provocando alguma séria convulsão sísmica. 1C3C2F_2

Afinal, a cidade ficava numa ilha e, em grande parte dela, quando se cavava um pouco mais fundo no chão, a água aparecia. Depois achou aquilo tudo uma grande bobagem. Afinal, quem era ele para colocar em dúvida a capacidade técnica de todos aqueles engenheiros e arquitetos que estavam construindo todos aqueles grandes e modernos prédios na cidade?

Estava fazendo a barba, na pequena pia que havia no quarto, quando um impacto mais forte do bate-estaca fez com que cortasse o rosto, um corte profundo, que sujou de sangue a louça branca, velha e rachada da pequena pia. Enquanto estancava o sangue, percebeu que o barulho do bate-estaca havia parado. Foi até a janela. O monstrengo realmente estava descansando. Um vento forte, agora muito quente, soprava lá fora.

João também sentia o vento forte. Só que, no lugar onde estava, o vento era frio. Encostado na amurada de pedra que separava o fim da praia do início do porto, que começava logo adiante, João observava o mar ficando mais e mais encrespado. Volta e meia, João se pegava ali, encostado naquela amurada, com os olhos fixos no mar do canal por onde os navios entravam e saíam da cidade. Aquele era o único lugar onde João ainda conseguia se sentir realmente um pouco mais presente na cidade onde havia nascido.

Pensou em Jeremias e imaginou que ele não tinha mandado mais nenhum e-mail com a continuação da história. Aliás, era ele, João, que nos últimos tempos andava mandando mensagens para Jeremias, e nenhuma delas havia sido respondida. Talvez Jeremias tivesse sumido de novo. Se fosse assim, a história que Jeremias queria contar nunca chegaria ao fim.

Olhando o mar, que ficava cada vez mais agitado à medida que a velocidade do vento aumentava, João gritou da amurada: “Foda-se!”

“Foda-se” foi o que Jeremias disse, ao decidir ir embora. Aliás, não apenas ir embora, mas mandar tudo aquilo à merda, tudo o que envolvia aquela cidade e, principalmente, aquela história que ele, um dia, achou que seria importante contar. A questão era que, desde que aquele maldito vento começara a soprar, ele não conseguia mais raciocinar direito a respeito de porra nenhuma. Vivia sobressaltado com a proximidade da próxima rajada. Seria mais forte ou mais fraca do que a anterior? Seria quente ou fria? E o nível do mar, havia subido mais um pouco durante a última noite?1193708145_homem

Jeremias sentia que estava enlouquecendo e sabia que a única saída era dar o fora. E que diabos estava esperando então? Por que não dava o fora já? Porque, lá no fundo, ele sentia que precisava esperar um pouco mais. Mas esperar o quê? Bem, isso ele não fazia a mínima idéia.

“Merda, merda, merda! Foda-se, foda-se, foda-se!”

João não conseguia explicar para si mesmo por que, naquele estado maníaco-depressivo em que se encontrava nos últimos dias, havia aceitado participar de um debate com outros escritores, numa feira de livros que se realizava na cidade. De qualquer forma, lá estava ele, mais uma vez fazendo essa perguntava para si mesmo, quando o mediador da mesa lhe perguntou o que ele pretendera ao escrever “A Porta dos Fundos do Paraíso”. João pegou o microfone e ficou por longo tempo encarando as pessoas sentadas na platéia. Depois, disse:

– Jeremias.

– Como?, indagou o mediador.

– Jeremias, repetiu João.

– Quem é Jeremias?

– Eu já não sei direito. Na verdade, às vezes eu duvido que ele ainda esteja vivo.

– Mas o que esse Jeremias tem a ver com o seu livro, “A Porta dos Fundos do Paraíso”?

– Eu acho que tem tudo a ver, mas vocês não iam entender. Então por que vocês não me deixam em paz? Talvez vocês todos estejam certos e eu errado, quer dizer, talvez eu esteja apenas enlouquecendo.palestra

– Como?

– É isso, é o como. Não existe um porque, somente um como! E eu não estou sabendo como contar a história que Jeremias me pediu pra contar. O maldito vento…

– Que vento?

– Esse maldito vento. Será que vocês não estão sentindo esse maldito vento?

João jogou o microfone no chão e saiu andando.

Um garoto sentado na última fila aplaudiu. João não percebeu.

Naquele dia, o vento começou a soprar logo que os primeiros raios de sol apareceram. Na verdade, os raios de sol não apareceram, porque o dia amanheceu nublado. Foi o que Jeremias descobriu ao colocar a cara para fora da janela, sentindo seus olhos arderem por causa da areia que o vento levantava.

Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã o vento não o incomodou. Estranhamente ele sentiu o vento como um companheiro, uma espécie de trilha sonora para a história que estava vivendo ali, embora cada vez mais se convencesse de que aquele enredo não fazia o mínimo sentido.

Jeremias foi caminhando direto para a praia e, durante o percurso, reparou que as pessoas nas ruas não pareciam incomodadas com o vento, que soprava cada vez mais forte, às vezes frio, às vezes quente. Ninguém parecia também dar a mínima para a areia que obrigava Jeremias, de quando em quando, a limpar as lentes de seus óculos escuros, para poder voltar a enxergar alguma coisa. Achou aquilo estranho, mas concluiu que era apenas mais um detalhe inusitado daquele inusitado roteiro que alguém devia ter escrito durante um surto psicótico qualquer.pes_praia_small

Ao chegar à praia e pisar na areia, apertou o passo. Tinha a sensação de que ele estaria lá, exatamente no lugar onde imaginara, mas sentia que precisava chegar na hora certa. Talvez a coisa toda tivesse a ver com sincronicidade ou com qualquer outra dessas teorias malucas que procuram explicar acontecimentos inexplicáveis. De qualquer forma, foi um alívio vê-lo lá, sentado na areia, ou melhor, envolvo num rodamoinho de areia que o vento levantava. Sentou-se ao seu lado e logo um outro rodamoinho também o envolveu.

– Eu sabia que ia te encontrar aqui

– Eu tinha certeza de que você apareceria.

– Engraçadas essas coisas, né?pes_praia_small

– Muito.

– Então, o que a gente faz?

– Não sei, você tem alguma idéia?

– Minhas idéias acabaram há muito tempo.

– Acho que as minhas também.

– Bem, a gente pode ficar por aqui mesmo, esperando o que vai acontecer.

– Por mim tudo bem, embora esse vento cheio de areia me incomode um pouco.

– Pra dizer a verdade, eu já me acostumei com ele. Agora eu estranho é quando não venta.

– Sabe que você tem razão. Às vezes também acontece comigo. Sinto falta dele, do vento.

– E a história?

– Que história?

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